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Tempos Difíceis para o Petróleo e os Biocombustíveis

Debates sobre a responsabilidade da China na propagação do novo coronavírus tem desviado a atenção da seríssima questão dos preços do petróleo

“Em qualquer questão há sempre três pontos de vista: O meu, o teu, e o correto” – Roberto Campos     

Escrevo hoje , dia 21/03/2021 , no meio do “furacão” resultante do novo coronavírus e da enorme queda nos preços do petróleo. Furacão esse que torna difícil qualquer análise, e mais ainda qualquer exercício de “futurologia”. 

Debates sobre a comprovada responsabilidade da China na propagação do vírus tem desviado a atenção da seríssima questão dos preços do petróleo. 

A China é o maior importador de petróleo do mundo, inclusive do Brasil. Segundo dados do MME, somente no mês de dezembro de 2019 o Brasil exportou 1,2 milhão de barris por dia para aquele país. É também o maior parceiro comercial do Brasil, sendo que nosso superávit nesse comércio tem sido da ordem de US$ 30 bilhões.

Evidentemente que a China como o maior importador de petróleo do mundo (6 milhões de barris por dia) poderá inegavelmente tirar partido da desvalorização dessa commodity , o que ocorrerá também com as commodities agrícolas e metálicas. 

Entretanto na realidade o verdadeiro estopim da crise foi o que aconteceu na última reunião da OPEP no dia 07 de fevereiro último, quando a Russia e a Arábia Saudita não chegaram a um acordo sobre a redução da produção de petróleo. Em represália a Arábia Saudita aumentou a produção em 2,5 milhões de barris por dia. Essa atitude sim, fez o preço do petróleo desabar chegando a menos de US$ 30 por barril.

Tendo em vista que essa é uma disputa na qual os dois países são perdedores, acredita-se que uma nova discussão deverá acontecer nos próximos meses, a qual deverá conduzir os dois países a buscarem um entendimento que, certamente, pressionará os preços para um outro patamar, acima do que vem sendo praticado.

Qualquer movimento dos dois maiores produtores mundiais, Rússia com 11,5 milhões de barris por dia e a Arábia Saudita agora com 12 milhões de barris/dia, tem impacto direto tanto na oferta como nos preços praticados globalmente. Os dois gigante juntos representam quase 24% da produção mundial.

Os USA encontram-se hoje também nesse patamar (12 milhões barris/dia), sendo que uma expressiva parte dessa produção vem do chamado shale oil, o qual vem encolhendo e se mostrando inviável em um mercado com preços abaixo de US$ 50 por barril.

Oportuno enfatizar que a oferta de petróleo que vinha crescendo de forma constante deverá sofrer alguma desaceleração em razão dessa crise. Mesmo o Brasil, que já produz mais de 3 milhões de barris por dia, poderia saltar muito provavelmente para 4 ou 5 milhões de barris nos próximos anos. Agora é uma incógnita…

Em um ambiente de crescimento econômico, o mercado consegue absorver, mesmo que parcialmente, o aumento da produção mundial (hoje em 97 milhões de barris/dia). Os problemas obviamente afloram em momentos de retração econômica, quando a oferta fica maior do que a procura.

No que tange ao setor de biocombustíveis, o mesmo ficará inviável caso seja mantido esse patamar de preços do petróleo. A experiência que tivemos de congelamento de preços no governo Dilma Rousseff, não apenas prejudicou fortemente a Petrobrás (corrupção à parte), como praticamente destruiu a indústria de etanol e biodiesel. 

Esse setor vinha se recuperando com a nova política liberal, não intervencionista, do governo atual, e lamentavelmente pode estar caminhando para outra grave crise.

Lamentavelmente também que novos investimentos em E&P ( Exploração e Produção) possivelmente ficarão em stand-by, aguardando por um cenário mais claro.

O momento é de incertezas e exige cautela.

Jose Luiz Orlandi é engenheiro e atua há mais de 35 anos na indústria de petróleo, biocombustíveis e energia

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