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Mercado quer liderar transição para economia de baixo carbono

Mecanismos como mercado de carbono são inexoráveis e precisam ser organizados para posicionar a economia brasileira de forma competitiva, defende CEBDS

Quase 25% das emissões globais de gases do efeito estufa já são precificadas de alguma forma. No Brasil, mais da metade das empresas já usam algum mecanismo de precificação interna de carbono. Os movimentos, segundo a presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, são inexoráveis e precisam ser organizados estrategicamente para serem vantajosos para a economia brasileira.

“O Brasil é um grande provedor de soluções para reduzir emissões, é algo que é mais fácil aqui do que em outros países. Se tiver cercado de segurança jurídica, o dinheiro vem para os bons projetos. E quanto mais cedo começamos essa aprendizagem, mais nos tornamos competitivos e balizamos melhor os preços”, diz Marina.

Nesta entrevista, a executiva fala sobre a proposta do CEBDS apresentada ao Ministério da Economia, que também conta com recursos do Banco Mundial para estudar cenários de precificação – US$ 3 milhões de acordo com a última atualização do programa (Partnership for Market Readiness).

Como o CEBDS está atuando em relação à transição energética?

Em várias áreas vemos uma discussão maior sobre o tema da transição energética. Isso porque boa parte das transformações tecnonológicas tem acontecido neste setor, a eletricidade aumentando sua participação, os preços das renováveis em queda. Há uma revolução realmente acontecendo, uma inovação. Ao mesmo tempo, globalmente e no Brasil. Então isso deixa de ser uma discussão distante. De repente está mudando o preço, mas não nos planejamos para isso. No mundo todo há uma quantidade cada vez maior de veiculos elétricos, no Brasil, a microgeração crescendo. Mas isso tudo não está sendo discutido adequadamente. Então essa é a nossa preocupação no CEBDS. Essa discussão é fundamental para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa no mundo. Apesar de o grande componente de emissão do Brasil não ser o na energia – é desmatamento ainda -, esse é o perfil contrário do resto do muno. Mas não temos tanto conforto assim para dizer que vai ser outro ritmo no Brasil. Não vai ser diferente por causa do preço, que está diminuindo muito. Ao mesmo tempo as condições de segurança da exploração de petróleo tem aumentado. Então você tem a realidade se impondo pelo preço, pelas mudanças de inovação que estão indo para essa área de transição. Além disso, há os compromisssos assumidos pelos países no Acordo de Paris. Apesar de no Brasil o principal componente ser o uso da terra, o desmatamento ilegal, a proposta do Brasil, ao contrário de outros países, é o que se chama de economy wide. Nos comprometemos a reduzir um percentual que não importa em qual setor, o que importa é  a quantidade que nos comprometmeos a reduzir. Então se o combate ao desmatamento não está indo bem, vai ter que bater em outro lugar, em energia, em transportes sobretudo. Essa área não pode ser alijada disso.

E como as empresas estão se preparando?

O Brasil está em um momento especial. Questões inibidoras da inovação no Brasil estão mudando. Como a quebra de monopólio que a Petrobras tem no Brasil, que permite uma maior competição entre vários agentes e pode levar a uma aceleração da inovação. A gente tem empresas globais no Brasil, como a Shell, que já usam bandeiras para responder a transição energética. Principalmente duas bandeiras: precificação de carbono e armazenamento de carbono. É como o setor se posiciona nessa transição para uma economia de baixo carbono.

Como a abertura maior de mercado incentiva as empresas a inovarem no tema da redução?

Você deixa de proteger tanto o setor, busca um posicionamento em relação a uma economia de baixo carbono. A Petrobras, mesmo com iniciativas de inovação, era mais tímida do que outras companhias globais, porque tinha um mercado mais protegido. Em mercado mais competitivos, a transição é  uma variante que está pressionando mais. Se você tem seis gases do efeito estufa, todos mapeados pela sua empresa, e muitas usam o GHG Protocol que foi adaptado pelo CEBDS junto com a FGV de São Paulo, você passa a buscar ser mais competitivo nesse cenário. Há várias formas de detectar que a transição veio para ficar. As ONGs reconhecem que as empresas de óleo e gás tem que ser protagonistas dessas transição, não devem ser alijadas. Mais da metade das dez propostas que apresentamos aos presidenciáveis menciona transição energética porque esse é um grande alavancador da inovação. Mas queremos mais engajamento para que as empresas estejam melhor posicionadas. Então também queremos engajar o governo nisso.

E como a precificação de carbono entra nesse jogo?

O próprio mercado de carbono nada mais é do que, dentro da própria empresa, taxar mais a emissão que está sendo feita. Com isso você direciona o recurso, dentro da própria empresa, para uma iniciativa de baixo carbono. Isso já está acontecendo. Elas têm mais solar, eólica, biomassa. A precificação de carbono via mercado, que é o que a gente está propondo, redireciona os recursos para que cresça essa nova economia. A China primeiro taxou. Taxação em tese é  sempre mais fácil. Hoje cerca de 24% das emissões de gases do efeito estufa da economia global estão taxadas de alguma maneira. Começou acontecendo na União Europeia em 2005, a China entrou começando com taxação para redirecionar. Quando você faz via economia de mercado ou via taxação, você dá um sinal para a economia inteira, que está criando mecanismos para privilegiar uma área. Estamos vivendo globalmente uma coisa parecida. Mas é uma transição, que tem um tempo para isso. E o setor de óleo e gás quer ser parte disso. Porque a gente não pode desaparecer com isso agora e nem em poucos anos. Há cenários da Shell que dizem que o pico será em 2050, outro fala que será em 2040. Há divergências, mas estão se preparando para estrategicamente se posicionar de acordo com o pico. Porque a demanda antes disso não será suprida de outra forma. Mas, enquanto isso,  vai aumentando a precificação interna do carbono.

Como funciona a precificação interna voluntária atualmente?

Hoje varia de US$ 1 a US$ 170 por tonelada. A maioria das nossas empresas [associadas] tem seu preço interno. Trabalhamos muito em processo de engajamento das empresas e uma das primeiras coisas é ver esse componente dentro do negócio, estabelecer o preço interno considerando que as plantas, os ativos, daqui a dez anos vão encontrar uma realidade diferente de precificação. Teremos uma economia mais restrita a emissões de carbono que a atual, vai ser mais caro. Então qual deve ser o valor em dez anos? Tem que contabilizar para o valor presente porque se o negócio não estiver robusto o suficiente, em dez anos, ele não vai sobreviver. O engajamento nesse tipo de iniciativa tem sido grande. 57% das empresas brasileiras tem precificação interna de carbono. Quanto mais acertar o chute, mais protegido o negócio está. Como hoje não há um mercado, as empresas simulam. Temos uma proposta que entregamos ao governo, engajamos treze setores, de óleo e gás e floresta, pedindo um mercado de carbono no Brasil.

Por que a defesa pelo mercado de carbono?

Quando a União Européia começou em 2005, durante um longo período, quando a meta de redução não era tão ambiciosa, o preço era alto. Isso existe justamente porque há metas de redução. E é preciso planejar como chegar lá, e não chegamos com o business as usual. Todos os países tem meta. Para chegar lá, tem que ter um instrumento. Se não vão continuar estimulando petróleo.

Isso não enfrenta resistência no setor empresarial?

Nossas empresas reconhecem a importância. Os setores querem fazer isso de forma organizada por reconhecer que a precificação vai ser necessária e não querem que aconteça de qualquer jeito. O Renovabio mostra que isso é inexorável. É uma lei agora. E de repente você tem um setor dizendo; isso tem que ser privilegiado, o mundo está indo para esse caminho. O que a gente quer fazer é que não seja só um setor. Na nossa proposta, conseguimos treze setores, conversando com as lideranças das empresas, e chegamos em um denominador comum: um mercado de carbono. No Brasil [a via do] mercado é melhor do que [a via da] taxação, mais simples, porque politicamente ninguém aguenta mais taxação de nada. A segunda questão é que o mercado dá transparência para os agentes. Você vai testando e aproximando do ponto ótimo. Há um período de experimentação.

Quão próximos estamos desse mercado de carbono?

A primeira coisa é declarar que queremos esse caminho. A nossa proposta foi apresentada no antigo Ministério da Fazenda e já foi reapresentada no da Economia. O ministério conta com o Partnership for Market Readiness, vários ministérios da economia do mundo inteiro receberam esse recurso do Banco Mundial para fazer cenários de precificação de carbono, mas tem que entregar isso até 2020. Então as empresas querem fazer isso junto para ter maior previsibilidade, porque é gradual. E garantir que não sejam taxadas ao mesmo tempo. Pode ser que cada setor faça o seu RenovaBio, o que pode dificultar a flexibilidade e possíveis ajustes entre os setores, como a nossa NDC propõe. A precificação é um instrumento poderoso para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono porque você coloca preço em uma externalidade que hoje não é precificada. Começa a organizar qual é o preço, é uma transição onde a competitividade da economia brasileira pode na verdade aumentar e ganhar com isso. Não é dizer que o petróleo não é uma grande riqueza brasileira, mas o nosso pré-sal tem que ser olhado de forma estratégica. Temos que tomar partido do que isso representa hoje, mas também tem que servir à essa nova economia. A precificação de carbono faz com que a empresa tenha um olhar estratégico. Organiza seu pico de emissão.

Qual é o desafio para essa transição?

Na nossa proposta, sugerimos que o mecanismo de precificação de carbono seja usado para alavancar uma nova economia. Que esse movimento que acontece nas empresas de óleo e gás que estão mudando seu negócio seja feito nacionalmente. É organizar, direcionar esse movimento. É muito importante falar sobre isso, estamos fazendo uma série de diálogos, participei recentemente de um evento no IBP. Mas, curiosamente, você vai de um evento para o outro e não há um fio condutor. Tem vários  cenários de Brasil refletidos nesses diálogos de transição energética. Falta uma visão estratéica do que o país quer na sua transição energética. Estamos buscando construir isso, até com a EPE, para desenhar qual é o cenário que o país quer buscar. A gente estimula, com a precificação interna, com a proposta de um mercado de carbono. Mas isso é uma atribuição do Estado brasileiro. Estamos buscando subsidiar, mas faltam elementos para que essa transição esteja melhor desenhada. Temos uma riqueza de fontes energéticas. A queda de preço de solar é um fato econômico. Você pode direcionar sem subsídios, por leilão. Inclusive sugerimos critérios nos leilões, com as externalidades de cada fonte, valoração de atributos socioambientais.

Voltando ao foco inicialpor que isso é estratégico para o Brasil?

O Brasil é um grande provedor de soluções para reduzir emissões, é algo que é mais fácil aqui do que em outros países. Se tiver cercado de segurança jurídica, o dinheiro vem para os bons projetos. Hoje não existe um mercado de carbono global. Quanto mais cedo começarmos esse jogo, melhor. Porque requer uma aprendizagem. E quanto mais cedo começamos essa aprendizagem, mais nos tornamos competitivos e balizamos melhor os preços. As empresas estão maduras, dizendo que querem um ambiente em que comecem a fazer esse exercício. E isso é bom para a economia brasileira.

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