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A importância do GNL no Brasil

Ivan Camargo

Em 2005, mais de 74% do comércio internacional de gás natural no mundo ocorreu por intermédio de gasodutos, segundo cálculos do BP Statistical Review. Apesar desta hegemonia do transporte dutoviário, tem aumentado a importância do transporte em navios criogênicos do gás natural liquefeito (GNL). O GNL é resultado de métodos de resfriamento, a temperaturas em torno de -160ºC, em que o gás natural passa ao estado líquido, permitindo a superação das limitações de movimentação e estocagem no estado gasoso e viabilizando o transporte por navios.

Esta tecnologia foi criada na metade do século XX com o objetivo de extrair hélio do ar para uso comercial. Em 1959, observou-se o primeiro transporte internacional de GNL, entre Lake Charles, nos EUA, e Canvey Island, no Reino Unido. O êxito dessa viagem conduziu à construção da primeira unidade de liquefação na Argélia, no início da década de 60. Graças a importantes inovações tecnológicas, ganhos de escala e ao aumento da competição entre supridores, os custos de liquefação, transporte e regaseificação do GNL vêm caindo desde os anos 90.

Aliada a esta queda nos custos, a perpetuação de um cenário de alta dos preços do petróleo e a perspectiva de declínio da produção de gás em países com consumo crescente, como os EUA e o Reino Unido, têm fomentado o interesse pelo GNL, visto como uma alternativa-chave para atender à expansão do mercado. Para os países produtores, por outro lado, o GNL representa uma oportunidade valiosa, pois permite a monetização de reservas localizadas em regiões distantes e isoladas dos principais mercados consumidores. Entre 2000 e 2005, o comércio internacional de GNL cresceu, em média, a uma taxa de 7% a.a., saindo de 137 bilhões de m3 (375 milhões m3/d) para 189 bilhões de m3 (517 milhões m3/d).

Japão e Coréia do Sul são tradicionais compradores, e suas importações corresponderam a 57% do total mundial em 2005. Na Europa, Espanha e França são grandes consumidores, respondendo por 18% das importações mundiais. Na América do Norte, os EUA demandam o equivalente a 9,5% das importações no mundo. Dentre estes países consumidores, espera-se forte expansão do fornecimento de GNL para o mercado norte-americano.

Entre 2000 e 2005, as importações líquidas dos EUA cresceram de 4,5 bilhões de m3 (12,4 milhões m3/d) para 16 bilhões de m3 (44 milhões m3/d), o equivalente a 29% a.a. Segundo o Energy Information Administration (EIA), projeta-se que até 2015 as importações líquidas de GNL alcancem 86 bilhões de m3 (237 milhões m3/d) e respondam por 12% do consumo norte-americano de gás natural. Além dos cinco terminais de regaseificação existentes nos EUA, sete novos projetos estão em construção em território norte-americano, no México e no Canadá, próximos à fronteira com os EUA.

Outros países consumidores também estão estreando na importação do GNL. Em maio deste ano, foi dada a partida no primeiro terminal de regaseificação na China, que deverá estar em operação comercial em setembro. Em 2006 também foi decidida a construção de um terminal de regaseificação no Chile, previsto para iniciar operações no fim de 2008, com vistas a diversificar o suprimento de importações, atualmente vindas na sua totalidade da Argentina.

Do lado da oferta, as principais plantas de liquefação estão situadas nas proximidades de importantes regiões produtoras, como Norte da África, Caribe, Oriente Médio e Sudeste da Ásia. Em 2005, Indonésia, Malásia, Qatar e Argélia responderam por 60% das exportações mundiais de GNL, suprindo mercados na Europa, Ásia e no Pacífico. Nas Américas, Trinidad e Tobago é o principal fornecedor dos EUA. Segundo dados da BP Statistical Review, em 2005 o país caribenho exportou para o mercado norte-americano 12,4 bilhões de m3 de GNL (34 milhões m3/d), o equivalente a 78% das importações líquidas dos EUA.

Nos próximos anos, prevê-se uma forte expansão, tanto da capacidade de liquefação como do número de navios preparados para o transporte do GNL. De acordo com estimativas do LNG Observer, até 2010, a capacidade instalada de liquefação deverá crescer em mais de 215 bilhões de m3 (590 milhões de m3/d), em função dos novos projetos e da ampliação das plantas existentes. Este acréscimo representa quase o dobro da capacidade instalada no mundo em meados de 2005.

Entre os novos projetos, encontra-se o primeiro terminal de liquefação localizado na Europa, a ser concluído até 2007 na Noruega. Em 2008, a Rússia, o maior produtor e exportador mundial de gás via gasodutos, fará sua estréia como exportador de GNL com a entrada em operação de um planta de liquefação na ilha Sakhalin, na costa leste russa, que servirá a mercados na Ásia e possivelmente na América do Norte.

No hemisfério Sul, em janeiro deste ano foi iniciada, no Peru, a construção da primeira planta de liquefação na América do Sul, também a primeira da costa oeste do continente americano. A planta constitui a terceira fase do Projeto Camisea, que contemplou o desenvolvimento dos campos de gás no sudeste daquele país. O número de navios para o transporte de GNL experimenta também um extraordinário crescimento.

Segundo a Associação Internacional dos Importadores de GNL (GIIGNL), ao fim de 2005, havia encomendas de 124 novos navios de GNL, um acréscimo de 65% na frota de 191 navios existentes na época. Por sua vez, o tamanho médio das embarcações tem aumentado, e os navios mais modernos estão sendo projetados com capacidade acima de 200.000 m3 – bastante superior aos 30.000 m3 que caracterizavam a frota no começo dos anos 70.

Solução para o Brasil

Em um mundo cada vez mais ávido por segurança no abastecimento energético, esta significativa expansão e dispersão da capacidade de produção e de transporte do GNL oferece aos países importadores crescente flexibilidade para o atendimento de seus mercados de gás. Esta vantagem do GNL contrasta com o elevado grau de dependência e rigidez que tipifica o fornecimento de gás através dos gasodutos internacionais – caso atual do Brasil. Entre 2001 e 2005, a demanda de gás natural cresceu 14% a.a. no Brasil.

Esse rápido crescimento vem sendo atendido, principalmente, pela expansão das importações da Bolívia. Cerca de 50% do gás consumido no país é importado e, desse total, 96% hoje vêm da Bolívia. Entre 2001 e 2005, as importações da Bolívia cresceram 22% a.a., enquanto a oferta doméstica, apenas 11% a.a. Com a crise institucional na Bolívia, ficou claro que precisamos tanto aumentar a oferta doméstica de gás como diversificar as importações, o que coloca ênfase na implantação de terminais de regaseificação de GNL.

O ponto crítico do abastecimento no Brasil está no atendimento da demanda de gás para geração de energia elétrica. Com o presente patamar de oferta, e mantido constante o consumo dos demais segmentos, seria impossível despachar simultaneamente grande parte da capacidade de geração térmica instalada. No Centro-Sul do país, esses desequilíbrios parecem imperceptíveis devido aos excedentes de capacidade de geração elétrica, resultado de uma demanda reprimida pelo ainda baixo crescimento da economia e o elevado nível dos reservatórios das hidrelétricas. Na Região Nordeste, porém, a situação é mais grave, pois já se verifica escassez de gás para o atendimento de novos consumidores e há uma menor perspectiva de elevação na oferta local do que no Centro-Sul.

Com o contínuo crescimento da economia e da demanda de eletricidade entre 2008 e 2010, os excedentes de capacidade de geração serão eliminados e crescerá o risco de déficit de energia elétrica e a probabilidade de maior despacho das térmicas a gás natural. O aumento da oferta doméstica, no entanto, só acontecerá em médio prazo. O calendário de antecipação da produção, anunciado pela Petrobras, que aponta para uma oferta adicional de 16,7 milhões e de 6 milhões de m3/d advindos, respectivamente, das bacias do Espírito Santo e de Campos em 2008, pode ser considerado otimista. As descobertas ocorridas em Santos estão ainda em fase de desenvolvimento (BS-500) e o começo de produção do campo de Mexilhão (BS-400) foi adiado para 2009.

Por fim, os elevados investimentos em logística e produção requeridos para aumentar a disponibilidade de gás nacional deverão ser executados em um ambiente de demanda aquecida por equipamentos e serviços, o que poderá ocasionar atrasos na entrada em operação dos projetos. No que se refere à importação da Bolívia, a expansão da capacidade de transporte do Gasbol e do fluxo de suprimento encontram-se comprometidos, em função da nacionalização da indústria de hidrocarbonetos na Bolívia, que reduziu a atratividade dos investimentos em produção e inviabiliza a ampliação da logística de importação.

Em 2005, a ocupação média do Gasbol foi de 77%, registrando um pico de 85% em setembro. Visando a ampliação do gasoduto, a TBG iniciou processo para seleção de interessados em adquirir capacidade de transporte adicional, mas cancelou estes procedimentos em maio em virtude da situação institucional no país vizinho.

Diante deste contexto, é urgente implantar medidas para elevar a produção no Brasil e diversificar as fontes de suprimento de gás importado. Entre as alternativas para o atendimento da demanda no curto prazo, particularmente no Nordeste, está a construção de unidades de regaseificação de GNL. A construção destas plantas viabiliza a importação de diferentes fontes, eleva a flexibilidade e a confiabilidade da oferta e minimiza os riscos de desabastecimento.

Ao serem concebidas em tamanhos modulares mais adequados à dimensão dos mercados locais, estas instalações racionalizam os custos de suprimento. Estimativas preliminares apontam para um investimento entre US$ 250 milhões e US$ 350 milhões para a instalação de uma planta capaz de ofertar entre 6 milhões e 10 milhões de m3/d. No curto prazo, essa alternativa seria mais vantajosa do que a construção de um gasoduto para interconectar o Nordeste ao Sudeste, que requer pesados custos fixos, operaria por um longo período ocioso e cujo investimento supera US$ 2 bilhões.

Para atrair os recursos necessários à implantação de terminais de regaseificação e promover a entrada do Brasil dentro dos fluxos mundiais de GNL, é fundamental uma política de preços que reflita o custo de oportunidade desses investimentos. Além disso, é importante a formação de parcerias entre Petrobras, empresas que possuam plantas de liquefação, distribuidoras de gás canalizado e proprietários de termelétricas, de modo a minimizar riscos e acelerar a execução dos projetos.

Ivan Camargo é especialista em energia da UnB, doutor em energia elétrica e ex-assessor da Aneel e do MME

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