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ARMANDO CAVANHA: Onshore incentivado

Por que o onshore de petróleo no Brasil, tanto a produção de óleo e gás como a exploração “shale”, estão tão acanhados?

A indústria de óleo e gás possui uma mundialidade ímpar, do ponto de vista da distribuição da atividade nos continentes. Com maior ou menor regulação do Estado, com maior ou menor presença de empresas globais, com maiores ou menores restrições ambientais, com o supply chain mais desenvolvido localmente ou mais importador, e, para não ser diferente de outras atividades, maiores ou menores incentivos e bonificações nos negócios.

Essa indústria possui uma sequência produtiva longa, desde a exploração das reservas de uma nação até a distribuição/varejo ao usuário final, quer de hidrocarbonetos líquidos ou gasosos.

http://www.energyinfrastructure.org/energy-101/oil-supply-chain

As diferentes formações profissionais ao longo desse processo envolvem geólogos, geofísicos, engenheiros de Reservatório e de outras especialidades e, praticamente, todas as demais profissões de estruturas de empresas em geral.

Contém interfaces intensas com reguladores, agências, Estado, envolvendo concessões, partilha de produção, meio ambiente, desenvolvimento de tecnologias e universidades.

 

http://www.petrobras.com.br/en/about-us/profile/stakeholders/

Na primeira fase do processo produtivo, há uma distinção importante entre as operações estarem localizadas em terra ou mar – ou no jargão do setor: onshore ou offshore.

A natureza escolheu onde preferia alojar seus reservatórios de hidrocarbonetos. E quais deles poderiam ser descobertos. O desenvolvimento e monetização, ela liberou para o ser humano decidir. Colocou este desafio para a indústria, que complica ou simplifica a sua interação.

E, assim, há uma boa diferença das atividades em mar ou em terra, pois equipamentos, treinamento, condições de vida e supply chain, são distintos e adaptados para seguir a riqueza. Apesar de os conceitos científicos se assemelharem para ambos os ambientes.

Um foco essencial é o do conjunto de regras e atratividade para cada um dos dois ambientes, o onshore e o offshore.

Especificamente no Brasil, pelo que se conhece até hoje, aparentemente os volumes a produzir no offshore seriam maiores do que no onshore, mas os investimentos, custos e riscos seriam maiores no offshore. Águas profundas, distâncias da costa, questões de meio ambiente e segurança operacional em mar e complexidade tecnológica requerida fazem muita diferença.

No Brasil offshore, a produtividade por dólar aplicado parece excepcional e muito atrativa, pelo que se avalia pelos leilões recentes. Costa da África e Golfo do México também possuem boa receptividade para águas mais profundas.

Uma das primeiras atividades da sequência produtiva é a aquisição de dados geofísicos. Ela já apresenta as primeiras diferenças entre offshore e onshore. Em terra, utilizam-se explosivos ou vibradores para geração de ondas sônicas para reflexão e mapeamento do subsolo: com geofones implantados no solo que capturam as ondas de reflexão.

 

https://www.e-education.psu.edu/marcellus/node/876

Em mar, são navios com cabos de bombas de ar arrastando e capturando dados para análise e interpretação, com hidrofones flutuantes ao longo dos cabos.

https://www.researchgate.net/figure/Schematic-illustration-of-the-marine-multichannel-reflection-seismic-acquisition-method_fig1_224828877

A perfuração é outra atividade com diferença de equipamentos importante, sondas de mar ou de terra são completamente distintas. Como consequência, custos, riscos, treinamento, peças, etc.

Nos EUA, em terra, tem havido uma retomada das operações de fraturamento hidráulico, o que tem elevado a produção de petróleo equivalente em mais de 50% nos últimos tempos. Dos 12 milhões de barris por dia produzidos por lá, 4 a 5 milhões já são dessa forma crescente de produção em terra, da chamada produção shale gas e tight oil.

Os equipamentos para offshore e onshore são diferentes, apesar que algumas características serem comuns, especialmente na produção chamada de convencional.

Quer sejam sondas flutuantes, ou apoiadas no subsolo marinho, ambas offshore, ou sondas terrestres, todas fazem coisas semelhantes, com equipamentos diferentes. Já o fraturamento hidráulico do “shale gas” possui características bastante distintas.

https://www.vacancyinoffshore.com/whats-new/types-of-offshore-oil-drilling-rigs/

A produção em mar enfrenta desafios de logística, escoamento da produção, permitindo induzir a poucos canais de recepção em terra. Já a produção em terra conduz mais à regionalização, reduzindo logísticas por vezes desnecessárias dos fluidos para aproveitamento em refino, petroquímica, indústria ou energia térmica, com características mais locais.

Do ponto de vista de estratégia de país, especificamente o Brasil, as três modalidades deveriam ser incentivadas economicamente, simplificadas nas regulações de concessão e meio ambiente, aproveitadas para distribuir riqueza e trabalho regionalmente: offshore, onshore convencional e onshore shale.

Independentemente da atratividade econômica de cada uma delas, a soma dos resultados é a melhor solução. Uma é mais volumétrica, outra é mais regionalizável, a terceira é promissora e de maior simplicidade produtiva. É uma estratégia para crescer e diversificar, ainda mais para um país centrado em uma única fonte de energia, a hídrica, e dos transportes dominantes por estradas e caminhões.

Portanto, não se trata de Onshore OU Offshore, mas sim de Onshore E Offshore, simultaneamente.

Seria um objetivo interessante incentivar o onshore para interiorizar a produção de energia, aumentar a inserção de empresas de menor porte na atividade produtiva, aumentar o conteúdo local natural.

Poderíamos pensar em um conjunto de ações para dinamizar esta camada de oportunidades do onshore. Incluindo um pacote regulatório específico, simplificado, com questões ambientais resolvidas, incentivos tributários, desburocratização estadual, incluindo concessionárias regionais e uso da cláusula de P&D do offshore para pesquisas onshore. Portanto, estes e outros exemplos poderiam ser objeto de um pacote completo de motivação empresarial.

Alternativas seriam bônus (compensando atividades de interesse realizadas) ou incentivos (como um plano a frente, motivador), estratégias da política e regulação para direcionar o mercado para as carências existentes pode ser útil na mudança de perfil de um país.

É torcer e ajudar para que possa acontecer e perdurar uma gestão governamental que se preocupe mais com estratégias de estimulação e estabilidade dos negócios, cada qual com seu atrativo, rentabilidade e simplicidade. Sem subsídios, mas com incentivos e bonificações, impulsionamentos.  Bem-vindo, onshore.

Armando  Cavanha F. é professor convidado da FGV/MBA e moderador em cavanha.cafe

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