e-revista Brasil Energia 484

40 Brasil Energia, nº 484, 30 de novembro de 2023 Continuação Paula Kovarsky tanto de alternativas de compensação para suas emissões? Outra discussão boa é o argumento de que SAF (combustível sustentável de aviação) é muito caro. Muitas empresas aéreas saíram na frente com compromissos muitas vezes mais ambiciosos do que os mandatos a que estão submetidas, mesmo reconhecendo que dificilmente haverá uma solução para viagens de longa distância baseada em eletrificação ou mesmo uso de hidrogênio. Para replicar a quantidade de energia contida em um quilo de querosene de aviação seria necessária uma bateria com 20x o peso, inviabilizando qualquer tentativa de decolagem. Sendo assim, existe razoável consenso de que os biocombustíveis muito provavelmente serão a única alternativa viável nas próximas décadas. Vale lembrar que esta é uma indústria que serve uma parcela da sociedade relativamente capaz de pagar a conta, além de ter acesso a informação suficiente para entender a importância do compromisso, fora a parcela movimentada pelas empresas em viagens corporativas. Se a alternativa de eletrificação ou uso de hidrogênio exigiria investimentos gigantescos em tecnologia e depois na troca das aeronaves, dizer que SAF é caro parece no mínimo uma simplificação. No caso brasileiro é mais difícil de entender. Como explicar que o consumidor brasileiro, mesmo em momentos em que a paridade de preço do etanol em bases energéticas está abaixo da gasolina, o mix de uso não passa de 30%, sendo que a frota hoje é predominantemente flex. Ou seja, mesmo com vantagem econômica os consumidores em sua maioria ainda dão preferência ao fóssil, por falta de conhecimento ou inércia. O que dizer então dos eventos recentes relacionados à nossa principal política pública para incentivar o consumo de biocombustíveis em detrimento dos combustíveis fósseis – o RenovaBio. Uma parcela das distribuidoras, parte obrigada do programa, fez questionamentos oportunísticos recentes às metas estabelecidas e, para piorar, o número de empresas inadimplentes com suas metas de descarbonização do programa vem saltando ano-a-ano tendo atingido 10% do total. Dessas empresas, 17 são reincidentes no descumprimento e 43 não compraram um único Crédito de Descarbonização (CBIO). Se essa postura não for punida severamente pelas autoridades competentes o problema se intensificará, uma vez que mais empresas serão incentivadas a não cumprir suas metas limitando muito a eficácia da política. A consciência global sobre a urgência de combater as mudanças climáticas e o papel da transição energética e do uso de combustíveis mais limpos evoluiu de forma impressionante nos últimos anos. Mas na hora de botar a mão no próprio bolso ou incorporar de verdade a sustentabilidade no conceito de risk- -adjusted returns, nem todos estão realmente dispostos a contribuir. Ou seja, todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer…

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