e-revista Brasil Energia 484

Brasil Energia, nº 484, 30 de novembro de 2023 39 Paula Kovarsky, engenheira mecânica e de produção, com MBA em finanças corporativas, tem mais de 20 anos de experiência no setor de energia e é VP na Raízen. Escreve na Brasil Energia a cada três meses. Paula Kovarsky Essa frase não é minha. Ouvi de um grande amigo e ex-chefe muito querido num tempo em que transição energética ou descarbonização não passavam de conversa acadêmica ou assunto de “abraça-árvore”. A conversa da época era o desenvolvimento do mercado de gás natural no Brasil, desafios de (falta de) infraestrutura e as primeiras tentativas de trazer GNL para o país. A participação da Petrobras na infraestrutura de gasodutos e nas distribuidoras de gás natural diminuiu e o mercado cativo de gás se desenvolveu. Já a questão do papel efetivo das termelétricas ou o mercado livre de gás seguem sem avanços expressivos, correndo o risco de perder o barco da transição energética. A frase, no entanto, segue mais atual do que nunca e tem me servido de argumento com frequência muito maior do que eu gostaria em discussões relacionadas ao custo da descarbonização. Traduzindo objetivamente: bancos, investidores, financiadores, consumidores, todos querem o carimbo verde e o impacto reputacional positivo desse compromisso, mas pouquíssimos estão realmente dispostos a tomar o risco tecnológico, risco de execução, reduzir taxa de financiamento ou pelo menos pagar o preço dos projetos ou produtos que promovem descarbonização. Pausa de consistência: Projetos sustentáveis e com objetivo de descarbonização precisam se pagar. Desde que comecei a me envolver com este tema repito abertamente que não existe projeto verdadeiramente sustentável no longo prazo se não houver sustentabilidade econômica. Mais ainda, insisto que o foco de desenvolvimento de produtos renováveis deve ser sempre “padrão exportação”, uma vez que o reconhecimento financeiro do atributo sustentável é múltiplas vezes maior nos EUA, Europa ou Japão do que aqui no Brasil. Isto posto, o que dizer por exemplo da agenda de financiamento verde da grande maioria dos bancos comerciais, que tanto valorizam o marketing da ambição Net Zero e que suportam a causa verde com financiamentos, se no fim as taxas oferecidas, calibradas pelos mesmos times de risco de crédito, são praticamente as mesmas dadas às empresas fosseis? Qual o sentido de um fundo soberano de um país grande produtor de petróleo querer retornos altíssimos, em moeda forte, para investir em projetos de energia renovável no Brasil mesmo quando seus países precisam Todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer morrer

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