e-revista Brasil Energia 484

26 Brasil Energia, nº 484, 30 de novembro de 2023 Continuação Edmar de Almeida de para o país. Entretanto, o entusiasmo com a exportação de hidrogênio e derivados não pode ofuscar aquela que é a oportunidade mais viável a curto prazo para a cadeia de hidrogênio no Brasil, que é justamente a descarbonização de setores e empresas industriais brasileiras. A produção de hidrogênio de baixo carbono de forma descentralizada no Brasil, ou seja, nas próprias fábricas, utilizando energia da rede ou a geração distribuída, é o caminho mais viável para iniciar o desenvolvimento da indústria do hidrogênio no Brasil, pelas seguintes razões: A produção no local de consumo evita custos com o transporte do hidrogênio; A energia elétrica da rede no Brasil já é basicamente descarbonizada, tendo atingido o nível de 92% de fontes renováveis em 2022; A tecnologia de eletrolisadores atual não possui economias de escala significativa. Os eletrolisadores disponíveis comercialmente ainda estão limitados a 10 MW de potência; Ao produzir localmente o hidrogênio, as empresas podem aproveitar não apenas o hidrogênio para substituir combustíveis fósseis, mas também o oxigênio produzido para melhorar a qualidade da queima em fornos, aquecedores e secadores. Autoprodução do hidrogênio evita a sua comercialização e impostos associados à venda. O Brasil não vai ter condições econômicas e fiscais de oferecer o mesmo nível de subsídios oferecidos pela Europa e os Estados Unidos para viabilizar projetos de hidrogênio de baixo carbono no país. Por esta razão, a política pública deve priorizar aqueles projetos que têm maior potencial de viabilidade. Estudos realizados pelo Instituto de Energia da PUC-Rio demonstraram que o hidrogênio verde já pode ser competitivo com o gás natural, em projetos voltados para substituição parcial do gás via mistura entre 5 a 15% no gás consumido pela fábrica. Esta viabilidade é possível com o preço final atual do gás natural (cerca de US$16,00 por MMBTU), o preço da energia elétrica de US$45,00 por MWh, e o capex do eletrolizador a US$1.600,00 por kW. O hidrogênio sairia ao mesmo preço do gás natural considerando os benefícios do aproveitamento do oxigênio (ou seja, redução adicional do consumo de gás em função do uso do oxigênio produzido na queima) e um crédito de carbono de US$50,00 por tonelada. Ou seja, já estão dadas as condições para a materialização de investimentos em projetos para produção do hidrogênio sustentável na indústria. Estes projetos podem se materializar mais rapidamente em função da menor escala de produção e menor complexidade comercial. Desta forma, é fundamental que a política pública priorize projetos de produção de H2 na indústria, que têm maior viabilidade econômica. Esta priorização poderia se dar através de uma política para: i) financiamento de projetos piloto na indústria com taxas de juros favoráveis; ii) classificação dos projetos piloto de hidrogênio como projetos de inovação; iii) e desoneração da importação de bens e serviços para projetos piloto na indústria. Ademais, é fundamental a implementação de políticas que teriam efeito para todos os tipos de projetos de hidrogênio de baixo carbono, tais como: i) implementação do mercado de carbono regulado; ii) desenvolvimento de uma política nacional de certificação do hidrogênio de baixo carbono; iii) Incentivos para o desenvolvimento da cadeia fornecedora no Brasil; iv) implementação de uma política de desoneração e redução dos encargos sobre da energia elétrica.

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