Brasil Energia | Ed. 475 - Junho, 2022

Brasil Energia , nº 475, 15 de junho de 2022 75 Izeusse Braga Izeusse Braga é economista, pós graduado em Marketing, escritor e conferencista internacional. Foi secretário geral da Arpel e diretor comercial da Petrobras. Escreve na Brasil Energia a cada quatro meses. REFINO DE PETRÓLEO NO MUNDO: ATÉ QUANDO SERÁ VIÁVEL? Em mais de 160 anos de presença crescente em nosso planeta, a indústria do petróleo vem sendo capaz de crescer, diversificar, adaptar-se e se reinventar para enfrentar, nos últi- mos tempos, os incontáveis desafios que insistememdetermi- nar o fim da era de uma fonte confiável de energia. Hámais de 40 anos, respeitadas autoridades do setor vêm afirmando que “o mundo tem petróleo para mais 40 anos de consumo”, fazendo que este seja um horizonte itinerante, mesmo porque, dada a senioridade das que o afirmam, ne- nhuma delas estará por aqui para confirmar suas assertivas. Hoje, o foco das preocupações da indústria está migrando para a área de refino, alvo de exigências de qualidade cres- centes, maior eficiência e menores emissões, mas não sendo ainda objeto de forças dissuasórias que comecem a reduzir significativamente o nível de 102 milhões de barris/dia de ca- pacidade de refino em todo o mundo ( BP Statistical Re- view 2021) . A rigor, nos últimos 20 anos a capacidade de refino mun- dial cresceu de 82,4 (2000), passando por 91,7 (2010), che- gando a 101,9milhões de bbl/dia em2020, destacando-se as regiões da Ásia-Pacífico (35,7%) e Europa-Eurásia (23,4%) e América do Norte (21,3%), que juntas representam mais de 80% da capacidade de refino mundial. Já na América do Sul e Central, que abrigam 18,7% das reservas mundiais provadas de óleo (323,4 bilhões de bbl), a capacidade de refino representa 6,1% da capacidade mun- dial, tendo passado de 6,35 em2010 a 6,16milhões de bbl/d em 2020. Nos mais recentes encontros técnicos para discutir o futuro do refino nomundo e na LAC, aArpel apresenta umpanorama em que se destacam as forças que atuam nesse segmento, e que poderão ser os direcionadores dos investimentos para as adaptações que visam acompanhar a demanda mundial (e re- gional) por derivados, especialmente para o setor de transporte, que representa 55%da demandamundial de petróleo: a) As anunciadas decisões políticas de alguns países em banir até 2025,2030 e 2040 os veículos a combustão interna; b)Asdecisõespolíticasdealgunspaísesemdescontinuar suas refinarias,já começando a importar 100%do que consomem; c) As exigências por crescentes padrões de qualidade dos combustíveis, reduzindo as emissões veiculares (CO, NOx, SOx, etc.) visando aumentar a proteção do meio ambiente e da vida humana; d) As ameaças da expansão das frotas de veículos movi- dos a eletricidade ou outras fontes renováveis; e)As decisões de grupos empresariais emreduzir suas capa- cidades de refino, intensificando investimentos em renováveis; f) As intenções declaradas de organizações em redirecionar investimentos e tecnologias para a produção de petroquímicos; Estima-se que as estratégias dos países que abrigam re- servas importantes de petróleo diferirão, por óbvias razões, das estratégias de quem tem grande (ou total) dependência do óleo importado. Os desequilíbrios daí decorrentes possivelmente aumen- tarão significativamente as relações de troca inter-regionais, incrementando-se o comércio internacional de derivados de petróleo, que seguirão sendo produzidos onde se sintam me- nores pressões políticas contra nossa indústria, mas sabendo- -se que terão que produzir derivados com qualidade crescen- te, especialmente com redução drástica ou eliminação de ele- mentos contaminantes. A grande pergunta que não quer calar: sabendo-se que o refino de petróleo gera hoje mais de 90% dos combustíveis que movem o setor de transporte, quem (e onde) seguirá re- finando petróleo, quando, por uma questão de escala, as de- cisões de focar em outras fontes de energia comecem a afe- tar a rentabilidade da atividade de refino em todo o mundo? Será essa uma “nova força” que induzirá o redirecionamento de focos e investimentos com maior intensidade para os não renováveis? Daqui para frente, será fundamental acompanhar toda es- sa movimentação, para que o setor tenha muito claro quando deverá começar a migrar de forma incisiva para a produção de novas formas de energia, buscando o equilíbrio que permi- ta seguir remunerando seus acionistas, sem deixar de refinar petróleo, enquanto este seguir sendo aceito pela sociedade mundial como uma das formas mais confiáveis de se gerar energia, combustíveis e petroquímicos.

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