Riscos críticos, sistêmicos e regulatórios: breve reflexão sobre a pandemia

A economia de baixo carbono, as redes inteligentes, o compartilhamento dos bens, as plataformas digitais e os arranjos locais projetam um futuro radicalmente diferente, mas ainda capitalista

A pandemia de Covid-19 acentuou, além da volatilidade dos preços, a percepção do risco e da estagnação global. Mais importante: a crise sanitária abre uma década de incertezas e desafios. Ainda bem que existe ciência, que ajuda a distinguir risco de incerteza e, ao esclarecer conceitos, traz soluções para essas e outras crises. 

Risco é o que pode ser medido, tanto na probabilidade de ocorrência quanto no impacto, após ocorrer. Incerteza é o improvável, que não tem como ser extrapolado do passado. Depois de avaliado, o primeiro deve ser administrado, mitigado ou anulado, se possível. O segundo tem natureza sistêmica e é, acima de tudo, imprevisível. A reflexão é oportuna para a política energética, ambiental e climática, assim como para o planejamento estratégico das empresas, instituições reguladoras e multilaterais. 

A virada do milênio prometia uma prosperidade que não se materializou. Sem contar 2008, não faltaram crises financeiras, eventos climáticos extremos, grandes acidentes industriais, conflitos militares envolvendo potências hegemônicas, coups d’états em países estratégicos, ataques terroristas e, agora, cibernéticos. Esses fatores configuram um ambiente incerto, no qual só falta uma crise nuclear. 

Na impossibilidade de medir risco de natureza tão diversa, é possível aferir sua percepção: ela é crescente. À volatilidade dos preços soma-se a instabilidade política e social no cenário mundial. Repetitivos, gradativos ou crônicos, quando se transformam em críticos, certos eventos são capazes de gerar crises sistêmicas, e elas não poupam setor da economia ou classe social. 

Do ponto de vista da política e do planejamento, a incerteza decorre da natureza estrutural das mudanças: conjugam energia, ocupação territorial, demografia, migração, geografia, política, economia e sociedade, ambiente e clima, a banca e as finanças. As transformações estão, todas, interconectadas, em pleno curso, e ganharão velocidade nesta década. 

A economia de baixo carbono, as redes inteligentes, o compartilhamento dos bens, as plataformas digitais e os arranjos locais projetam um futuro radicalmente diferente, mas ainda capitalista, ao que tudo indica. De nossa parte, cabe notar que o maior risco é regulatório. Resumidamente, ele decorre de três fatores: a inconsistência temporal das políticas que visam o curto prazo, o descompasso entre a agenda regulatória e a crescente incerteza, além da obsolescência das regras frente à rapidez das mudanças.

A resposta à pandemia, por mais notável que tenha sido obter a vacina em menos de um ano, não trouxe solução definitiva. Também pouco conforta frente à natureza sistêmica do risco. Ao menos, não se viu nenhuma corrida aos bancos, ou o colapso das praças financeiras, ou a falência em cadeia de empresas, o que certifica a prudência keynesiana na gestão macroeconômica.

No entanto, fora da ciência e da regulação da moeda e das finanças (que, aliás, vão muito bem), não faltam motivos de preocupação: degradação ambiental, mudança climática, distribuição de renda, desigualdade social… A ciência ensina que, com planejamento e medidas preventivas, é possível gerir o risco. Ocorrendo, cabe mitigar o impacto, com um plano de emergência. Ações, responsáveis, meios e protocolos deverão ser definidos de acordo com a melhor técnica. 

Pois bem. De imediato, é o que se espera da gestão da crise hídrica, do que fazer com o gás natural e de como aproveitar melhor as reservas do pré-sal.

Duque Dutra é Mestre em Planejamento Energético, Doutor em Ciências Econômicas e Professor Adjunto da Escola de Química da UFRJ

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