Rachel Andalaft: Investimentos estrangeiros diretos miram energias renováveis

Brasil deve receber US$ 100 bi em investimentos globais e parte deve ir para éolica e solar. Mas concretização de reformas é essencial

O Brasil pretende conquistar US$ 100 bilhões em investimentos estrangeiros, de acordo com estimativas de investidores presentes no evento “O Futuro do Brasil”, que ocorreu no último Fórum Econômico Mundial, em Davos. Será o maior volume desde 2012, quando o país recebeu US$ 93 bilhões em investimentos estrangeiros.

Boa parte desses recursos, previstos para entrar como Investimento Estrangeiro Direto (IED), deve seguir para a área de infraestrutura via mercado de capitais. E quem acompanha de perto o Brasil sabe que os ativos ainda estão subavaliados, sendo que os seus preços não refletem totalmente os potenciais benefícios caso todas as reformas anunciadas pelo novo governo se concretizem.

Além disso, para especialistas globais, o país estaria na dianteira para atrair aportes entre os latino-americanos, com potencial para crescer nos próximos três anos quando comparado a Argentina e México, por exemplo.

Neste contexto, o setor de infraestrutura, com especial atenção ao segmento de energias renováveis, terá espaço para a captação de uma fonte de capital com enorme potencial: os investimentos alternativos por investidores institucionais. Estamos falando de fundos de pensão, fundos de investimento, family offices, bancos e seguradoras; investidores que se destacam pelo alto nível de diligência e governança de seus Investment Commitees, gestão de risco elaborada, e aptidão em gerar altas taxas de retorno. Além disso, esta categoria de investidores tem o potencial de promover uma redução de custos que pode chegar até 30% em relação aos seus pares estratégicos (isto é, empreendedores EPCistas).

Em função dos baixos juros praticados na Europa e na América do Norte, tais investidores também se destacam por sua acentuada liquidez. Dados da Climate Policy Initiative estimam uma disponibilidade de até US$ 40 bilhões por ano para aportes diretos em projetos de geração de energia renovável, como solar e eólica, no mundo todo. Impressiona o fato de que, apesar da liquidez, menos de 10% desse valor tem sido efetivamente aportado.

Neste contexto, ganham destaque os empreendimentos de energia renovável no Brasil. O potencial solar e eólico brasileiro é um dos maiores do mundo. Soma-se a isso, o aumento global da competitividade destas fontes refletido, sobretudo, na queda de preços dos equipamentos.

Apesar do crescente interesse na participação de investimentos institucionais diretos em projetos no Brasil, ele ainda pouco se concretiza barrado por barreiras econômicas e regulatórias. O recente anúncio da Lyon Capital da aquisição de ativos de energia solar no Rio Grande do Norte, em fevereiro de 2019, cria precedentes necessários para impulsionar o mercado. Antes, os mesmos ativos já tinham sido alvo de interesse de um fundo suíço. A situação é recorrente entre investidores institucionais, há interesse e apetite, mas são freados pela cautela em aguardar medidas concretas do novo governo.

Para as oportunidades se concretizarem algumas ações são essenciais. A criação de um Ministério de Infraestrutura é uma iniciativa louvável, pois reduz o tempo de consulta e aprovação de projetos, antes divididos em diversas autarquias e ministérios, e facilita a execução de obras para depois de 2020, ano em que se encerra parte expressiva dos projetos mapeados no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Outra promessa é o fortalecimento das agências reguladoras – importantíssimo para garantir previsibilidade e regras claras. Outro ponto aguardado com cautela pelos gestores de fundos é a pauta econômica, como o ritmo de aprovação da reforma da Previdência e cortes na despesa do orçamento federal, que ameaça a sustentabilidade fiscal.

Tal conjunto de medidas tem o potencial de redefinir o “risco Brasil” percebido pelos investidores. Aliado aos juros mais baixos, retomada do crescimento econômico, robustez institucional e esperança de desburocratização, abre caminho mais fluido para a captação de recursos estrangeiros em energias renováveis no país. Já a velocidade dos investimentos será na mesma proporção do ganho de confiança no mercado.

Rachel E. Andalaft é fundadora da REA Consult, consultora e gestora junto a investidores institucionais.

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