O que existe além do óleo e gás para Engenheiros de Petróleo?

Um compilado de histórias destes profissionais em diferentes áreas do mercado de trabalho

Um dos grandes desafios enfrentados por Engenheiros de Petróleo recém formados no Brasil, há alguns anos, é a dificuldade em encontrar oportunidades profissionais nas áreas técnicas de exploração e  produção (E&P) de petróleo. O boom do mercado no início dos anos 2000 e a entrada de novos players no país  emergiu em milhares de jovens ao redor do Brasil o desejo de trabalhar em áreas correlatas, não obstante, tal efeito jamais chegou de fato.

Com a descoberta do pré-sal, em 2007, o Brasil entrou de vez no cenário mundial de exploração e produção de petróleo, e este fato motivou a abertura em massa de cursos técnicos e de graduação para suprir toda a demanda por profissionais que estava por vir.

Para nortearmos nossa discussão, observem estes dados publicados em nosso artigo em Maio: em 2005, de acordo com o MEC, o Brasil possuía apenas 6 cursos registrados de Engenharia de Petróleo, representando em torno de 535 vagas por ano, em um cenário onde se produzia em torno de 1,6 milhões de barris por dia (1). Atualmente, temos no Brasil 101 opções de Bacharelados em Engenharia de Petróleo, com números que giram em torno de 20.300 vagas semestrais, além de 102 cursos Tecnológicos de Petróleo e Gás, com aproximadamente 13.800 vagas semestrais, segundo o MEC (2).

Outro ponto de atenção para nossa discussão é o fato de que a maior parte das empresas de petróleo estarem sediadas na região sudeste, majoritariamente no Rio de Janeiro. Em contrapartida, a onda de novos cursos bacharelados e tecnológicos atingiu o Brasil como um todo – até mesmo os estados que não possuíam nem mesmo exploração ativa de óleo e gás – o que pode ter intensificado o insucesso de novos formandos em conquistar as tão sonhadas vagas dentro do setor. Nota-se também que, além de não ter ocorrido à expansão das empresas para outras regiões do Brasil, muitas das que aqui estavam deixaram o país ou colocaram seus projetos on-hold devido à burocracias ligadas às discussões correlatas ao modelo de contrato do Pré-Sal, atrasos e inexequíveis pedidos referentes às licenças ambientais e à não possibilidade em testar os ativos tidos como não convencionais. Como se não bastassem as problemáticas à brasileira para com as empresas privadas,  a Petrobras, empresa estatal responsável pela maior parte da produção e  demanda por operações do país, respondendo às críticas pela sua grande dívida e estrutura inchada, deixou de realizar concursos antes frequentes.

Por fim, a indústria mundial de petróleo como um todo é considerada uma grande montanha russa, por apresentar oscilações constantes devido à diversos fatores externos tais como o monopólio, hoje mais fraco, mas ainda resiliente por parte da OPEP, questões geopolíticas, confrontos bélicos e comerciais, questões ambientais, etc. que acabam por impactar as curvas de demanda e oferta. Tudo isso, certamente, impacta ainda mais a busca por uma vaga de trabalho e/ou estágio na área, dependendo do momento.

Isso posto, como resultado o que se observa é uma grande massa de Engenheiros (as) de Petróleo que tem buscado atuar em áreas distintas as de suas formações, em diversos setores. A boa notícia é: temos bons exemplos de profissionais formados em Engenharia de Petróleo que encontraram luz fora do E&P e tem tido sucesso profissional nas mais diferentes áreas. Isso se torna mais fácil de entender quando pensamos que, antes de tudo, somos Engenheiros (as), profissionais formados, treinados e focados em resoluções de problemas e adaptabilidade a mudanças e atualizações no mercado.

Essa questão, no entanto, não é tão simples quanto parece. Sem sombra de dúvidas, uma das perguntas mais difíceis que persevera incansavelmente na cabeça de estudantes e jovens profissionais é a seguinte: “Até que ponto eu estou disposto a deixar para trás a formação árdua num bacharel de Engenharia de Petróleo e/ou cursos correlatos, para me arriscar ou procurar uma alocação em outras áreas?”. De fato, o assunto é complexo, e não tem uma resposta certa ou errada.

O exercício de “pensar fora da caixa” é um processo contínuo, e muitas vezes árduo, mas que pode (e deve) ajudar imensamente no processo de inserção do jovem profissional no mercado de trabalho e no consequente sucesso de suas carreiras. Mas o que seria o “pensar fora da caixa”?

Pode se dizer que esta é uma expressão muito conhecida não só na indústria e no mundo corporativo, mas na sociedade como um todo, que surgiu como derivada da frase do inglês “Thinking outside the box”, e significa pensar de forma inovadora, criativa e ir além dos padrões convencionais. Nota-se que, a partir do momento que o jovem começa a pensar além das possibilidades que existem unicamente na indústria do petróleo, ele(a) começa a se deparar com um mar de oportunidades nas mais diferentes áreas do mercado.

Pensando fora da caixa
A lenta abertura de vagas de trabalho na indústria do petróleo no Brasil nos últimos anos está fazendo com que os jovens saiam de sua zona de conforto e comecem a pensar “Fora da caixa”.

 

Algumas características específicas da Engenharia de Petróleo, que falaremos com mais detalhes posteriormente, acabam ajudando nós, petroleiros de formação, a sair na frente na busca por um trabalho em outras áreas. Além disso, existem atividades e iniciativas que podem ajudar nesse processo e garantir um leque robusto, com diferentes opções de acordo com as afinidades de cada um.

O primeiro aqui em destaque é a formação complementar que engenheiros de petróleo geralmente são expostos na faculdade através da SPE – Society of Petroleum Engineers – onde estudantes se organizam para realizar eventos, organizar programações, gerir caixa, entrar em contato com profissionais da área, cultivo ao networking e claro, o bom e velho (mas nao fora de moda) trabalho em grupo. Todas essas atividades escancaram a necessidade do desenvolvimento de soft skills, que hoje em dia, muitas vezes, são mais requisitadas do que as hard, uma vez que estas últimas podem ser ensinadas e aprendidas, enquanto as primeiras têm mais a ver com a personalidade e o self-development dos colaboradores. De acordo com o Relatório global de tendências de talentos de 2019 (LinkedIn’s Global Talent Trends 2019) (3), 92% dos profissionais de RH relataram que as soft skills são tão ou mais importantes para contratar do que as hard, e  89% disseram que quando uma nova contratação não dá certo, é porque eles não têm as habilidades ditas não técnicas essenciais.

Gráfico sobre contratações ruins
Fonte: LinkedIn’s Global Talent Trends 2019

Outro ponto de atenção a nós, Engenheiros (as) de Petróleo, é o fato de que o curso por si só é muito interdisciplinar: ao longo da graduação, além de toda a relação densa com as exatas que são características das engenharias, temos contato com diversas áreas do conhecimento, que variam desde geologia, economia e direito ambiental até refino e petroquímica, exigindo um conhecimento mais abrangente dos processos. A interdisciplinaridade é um fator positivo, pois o contato com conhecimentos distintos nos dão uma base mais sólida para enfrentar problemas do mundo real, além de treinar nossa adaptabilidade a diferentes ciências.

Por fim, há de se destacar o fato de que a maioria, seguramente, dos materiais de estudo relacionados à Engenharia de Petróleo são em inglês. Desde as unidades de medida do Sistema Americano, que não são nada usuais a nós brasileiros, até os mais recentes estudos e artigos científicos, somos obrigados a estudar grande parte da graduação na língua inglesa. Além disso, a indústria petrolífera foi pioneira em sua globalização e continua o sendo – ou seja, fora todo contato obrigatório com a língua estrangeira, entramos no curso já sabendo da importância do idioma fora dele.

Diante de todo esse cenário favorável, acreditamos que sim, os Engenheiros (as) de Petróleo formados no Brasil são extremamente capazes de atuar fora do O&G, e nesta série de artigos traremos histórias de sucesso que embasam essa afirmação com petroleiros em diversas áreas: bens e serviços, energia, data science, combustíveis, finanças, etc. Com um pensamento fora da caixa e criatividade, aliados às situações que somos expostos ao longo da graduação, estamos certamente preparados para concorrer de igual para igual com outros cursos nas mais diversas áreas do mercado de trabalho sempre como o norte sendo resolver problemas e otimizar processos!

Vamos juntos! Vamos desvendar o que há Além do Oléo e Gás!


Fontes:

* Os autores reforçam que suas opiniões não representam necessariamente a das empresas nas quais trabalham ou de qualquer entidade da qual participem.


Arthur Müzel é Engenheiro de Petróleo e Recursos Renováveis pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Parte de sua graduação foi feita no Langara College, em Vancouver (Canada) onde estudou Environmental Sciences e estagiou como assistente de laboratório de quimica em um projeto de pesquisa chamado “Biochar Project”. Em 2019 iniciou sua trajetória como estagiário na COMERC Energia, onde atua até hoje como Executivo de Relacionamento com o Cliente, na área de gestão de consumidores no Mercado Livre de Energia.

João Pedro Patekoski Gomes é Engenheiro de Petróleo e Recursos Renováveis pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Atua como Supervisor Comercial na Duracell Brasil, onde iniciou sua carreira como estagiário em 2018. Durante a graduação, foi membro ativo do Capítulo Estudantil SPE Unifesp, atuando como presidente na gestão 2017/2018.

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