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O combustível fóssil e a transição para as novas fontes de energia

Executivos precisam se preparar para as mudanças na nova realidade do mercado, afirma José de Sá, da Bain & Company

Não há dúvidas de que o mundo está passando por uma transição rumo a um futuro mais verde. Cada vez mais, países de todo os continentes se desafiam a diversificar suas matrizes energéticas para aumentar os modos de produção de energia renovável e limpa.

Em uma economia global em pleno desenvolvimento, ainda há um consumo crescente de combustíveis fósseis. Contudo, segundo estudo da Bain & Company sobre os mercados de energia – especificamente petróleo, gás, carvão, energia nuclear e fontes renováveis –, a demanda de combustíveis fósseis poderá atingir seu pico em 2030. E será seguida de uma transição agressiva para outras formas de energia.

Nesse cenário, os executivos das empresas de energia precisam se preparar para as mudanças inerentes à nova realidade do mercado. A Bain desenvolveu um plano de ação para ajudar os gestores a ter sucesso. Para tanto, examinou 17 potenciais disrupções no cenário energético até 2030 e também incorporou cinco novas tendências: três que afetam a demanda industrial (demanda de plásticos, reciclagem de não plásticos e eficiência energética industrial); e duas que influenciam as restantes (digital e sustentabilidade).

A primeira das tendências se refere à demanda de plásticos. A regulamentação do produto e a adoção de diferentes práticas industriais terão um impacto na demanda de plásticos virgens até 2030. Com uma importante e nova regulamentação, uma mudança radical no comportamento do consumidor e o acelerado desenvolvimento de substitutos, a redução do uso desses materiais poderá alterar em 3% a demanda global de derivados de petróleo. Para ter uma ideia do que isso representa, esse é aproximadamente o mesmo nível de mudança previsto para a entrada de motores elétricos no mercado de veículos leves.

Além disso, o aumento da reciclagem (excluindo-se os plásticos) reduzirá a demanda de energia em 0,3%. Espera-se que os processos de reciclagem aumentem significativamente nas indústrias, que compõem uma grande parcela da demanda de energia, bem como nos mercados de aço, papel e alumínio. Isso resultará em uma economia significativa de energia, pois é substancialmente mais eficiente, em termos energéticos, produzir material reciclado que novo.

Já a intensidade energética industrial deverá declinar anualmente entre dois e três pontos percentuais, devido a melhorias de eficiência de várias fontes e implementação de tecnologias mais eficazes; maior regulação e apoio governamental; padrões de gestão de energia orientados para o consumidor; edifícios recém-construídos; e novas máquinas em regiões em crescimento.

Entre as tendências, não restam dúvidas de que as disrupções digitais terão papel bastante importante no processo de transição energética. Elas terão atuação incisiva na redução dos custos e vão melhorar a eficiência do processo ao longo das cadeias de valor, tanto do lado da oferta quanto da demanda.

A tecnologia digital já começou a flexibilizar as curvas de custo e eficiência, e essa tendência vai se acelerar ainda mais no futuro. Com isso, o digital será um dos principais impulsionadores de muitas disrupções potenciais. Alguns exemplos que merecem destaque:

o Manter petróleo e gás não convencionais em suas respectivas curvas de experiência, para continuar a reduzir os custos de break even de uma maneira previsível;

o Mudar as etapas de custos operacionais e eficiências de capital para fontes convencionais de petróleo e gás, especialmente offshore;

o Otimizar as curvas de aprendizado das energias solar e eólica;

o Permitir que redes inteligentes alcancem níveis cada vez mais altos de renováveis no mix de geração de energia;

o Possibilitar melhor integração das respostas às demandas, eficiência energética e energia fotovoltaica distribuída, a fim de proporcionar melhor gerenciamento de demanda para os consumidores por meio da utilização de dispositivos inteligentes;

o Obter maior eficiência de combustível para veículos com motor de combustão interna;

o Aumentar a penetração de veículos elétricos e acelerar a comercialização de veículos autônomos.

A sustentabilidade, assim como o digital, influencia muitas tendências. As regulamentações sobre energia renovável estão em vigor em 141 países, e, desde meados de 2016, dez países implementaram ou sugeriram leis mais rigorosas. Apesar da importante exceção dos EUA, as pressões estão mais fortes na Ásia e nas Américas. À medida que os países começam a usar a precificação de carbono como avaliação de risco de mudanças climáticas, a tendência é de que haja uma aceleração no desuso dos combustíveis fósseis.

No transporte, os esforços de sustentabilidade impulsionarão a penetração dos veículos elétricos e de padrões mais altos de eficiência de combustível, ao mesmo tempo em que pressionarão as indústrias de transporte e aviação a investir em gás natural liquefeito e biocombustíveis, estabelecendo regulamentações de emissões ainda mais rigorosas.

E, finalmente, outros elementos de sustentabilidade terão impacto no amplo cenário energético e na maneira como as empresas operam. A consciência ambiental está moldando as reações do consumidor, o apetite do investidor e as atitudes do governo. O risco de abalos na reputação, a regulação e a escassez global influenciam na gestão de recursos como a água. Nesse sentido, as cidades ecológicas emblemáticas, motivadas para reduzir as emissões locais, estão implementando pedágios, regulando o tráfego e adquirindo energia renovável. Até mesmo o gerenciamento de baterias em fim de vida apresenta novas implicações para a reciclagem e remanufatura, criando oportunidades de segunda vida.

O panorama energético está passando por uma mudança estrutural que criará raízes sólidas na década de 2020, e provavelmente levará a uma mudança muito rápida na década de 2030, à medida que a adoção de substitutos de combustível aumenta. Independentemente do momento ou direção dessa transição, os executivos de energia devem se preparar agora.

José de Sá é sócio da consultoria Bain & Company.

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