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Nada como a realidade batendo à porta

Brasil pode evoluir, mas há tranquilidade para falar de seu papel relevante na cruzada pela transição da matriz energética

Não é de hoje que se fala da necessidade de reduzir emissões de gases de efeito estufa na atmosfera ou de aumentar a participação de energias renováveis na matriz energética global. Mas a verdade é que até pouco tempo atrás essa discussão era mais restrita aos meios acadêmicos, fóruns internacionais focados no assunto e ONGs. Vazamentos de petróleo ou a poluição em centros urbanos sempre levantaram debates, mas em função de eventos específicos. Um mundo mais conectado, mais informações disponíveis, novas gerações mais conscientizadas e preocupadas com o futuro são boas explicações para esse tema ter ganhado tanta atenção recentemente. Nada como a realidade batendo à porta, aliada a sinais econômicos corretos. E muita tranquilidade para falar do papel relevante do Brasil nesta cruzada.

A conversa fica mais séria quando algoritmos complexos parecem incapazes de acertar a previsão do tempo, impactando a agricultura e os preços das commodities. Aí o aquecimento global afeta os bolsos dos grandes investidores, das grandes tradings e de grandes agricultores. Ou quando a consciência se traduz em mudanças relevantes no perfil de consumo: ter um carro elétrico é “cool” ou simplesmente parece melhor nem ter um e andar de bicicleta.  

Some-se a isso a queda exponencial do custo das energias renováveis. Se, há menos de uma década, energia solar ou eólica só fazia sentido com subsídios, essas fontes estão deixando de ser alternativas. Dez anos atrás, a geração solar custava cerca de USD 350/MWh nos Estados Unidos. Hoje custa praticamente um décimo disso. A geração eólica custava algo em torno de USD 150/MWh, custando pelo menos 3 vezes menos hoje. Interessante que a geração a gás foi de cerca de USD 80/MWh para perto de USD 60/MWh (uma queda de cerca de 25%), sendo que em média os preços de gás caíram praticamente a metade no período. Existem ainda questões a serem resolvidas como a intermitência das fontes renováveis de geração, além da indisponibilidade em horários de pico de consumo. O gás natural ainda terá um papel relevante como combustível de transição nesse sentido. 

Comparando a evolução dos custos de geração solar ou eólica com gás, cabe no mínimo um alerta: a maior parte da geração a gás é de base. Se os preços da solar ou da eólica se tornarem tão competitivos que o gás simplesmente não consiga competir em determinados horários, perdendo espaço na base, os custos de geração dessa fonte podem aumentar. Vivemos isso no Brasil em função da enorme sazonalidade da geração hidrelétrica e a eterna discussão de otimização de um sistema hidro-térmico. O desafio só vai aumentar com mais geração solar e eólica. 

Existem alternativas em desenvolvimento para otimizar o lado da carga e aumentar a eficiência energética através de algoritmos que conectam pools de geração e carga. Isso sem contar todo o investimento na busca por uma solução de estoque de energia através das baterias, resolvendo a intermitência. Argumenta-se que a capacidade de armazenamento das baterias evoluiu pouco nos últimos dez anos, com custos não competitivos. Mas os investimentos aceleram: a capacidade de manufatura de baterias de lithium/ion (em MWh) cresceu 200 vezes nos últimos 15 anos nos EUA, das quais 100 vezes nos últimos 2 anos!

O Brasil já ultrapassou metas estabelecidas no acordo de Paris. O compromisso era de chegar em 2030 com participação de 18% em biocombustíveis na matriz energética. Já chegamos a 17.3% e estamos evoluindo rapidamente ao estabelecer sinais econômicos corretos para promover o aumento dessa participação: o Renovabio é um exemplo importante. A meta de participação de 45% de energias renováveis na matriz, em 2030, já foi ultrapassada esse ano (45,3%) mesmo excluindo a geração hidrelétrica dessa conta – a meta era 28% e estamos em 32,7%. Contra fatos não há argumentos e devemos usar esses números sempre que houver questionamento quanto ao  compromisso do Brasil com redução de emissões. 

Podemos e devemos evoluir em temas não tão novos, como incentivar a geração próxima  ao centro de carga, reduzindo perdas, dando maior transparência no custo de transporte de energia e de gás. Podemos avançar também na implantação de tarifas horárias de energia elétrica, incrementando o mecanismo das bandeiras tarifárias. E, por que não, evoluir na possibilidade de comercialização dos chamados créditos de geração renovável, entre outros. Mas, sem sombra de dúvidas, estamos no caminho!

Paula Kovarsky é Head of US Office e diretora de Relações com Investidores da Cosan desde 2015, com mais de 20 anos de experiência no setor de Óleo & Gas. Escreve na Brasil Energia a cada duas edições.

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