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Menos do mesmo

Somada à política, ao futebol e à religião, a transição energética certamente figura entre os temas cujo debate é dos mais acalorados, que geram divergência e até repartem famílias. Como ponto comum, todos os temas envolvem paixões e trazem consigo verdades absolutas, respostas rápidas e soluções simplistas.

Desde a assinatura do Acordo de Paris em 2016 e seu ousado objetivo de limitar o aquecimento global em 2 graus em relação aos níveis pré-industriais neste século, o mundo se voltou para discutir quem faria o quê, como se aumentaria a participação de renováveis no fornecimento de energia, bem como quais seriam as melhores formas para abater as emissões de carbono equivalente existentes.

É comum ouvirmos críticas acerca do aumento da participação do carvão e outras fontes não renováveis na matriz energética global, causada sobretudo pela explosão de crescimento da China e da Índia nos anos 2000[1]. Contudo, fazer julgamentos superficiais sobre as políticas energéticas com grande pegada de carbono de países emergentes não seria justo. Precisamos nos lembrar que membros da OECD construíram um sólido bem estar social graças a fontes intensivas em carbono num passado não tão distante. Tanto os desenvolvidos quanto os emergentes de hoje foram, são e continuarão sendo pragmáticos e sua matriz será reflexo não apenas de questões ambientais, muito importantes e em voga no momento, mas principalmente de quesitos como acesso ($/MMbtu) e segurança energética.

Aproximadamente 80 anos separam aquele Brasil, que começara a investir pesado em hidrelétricas, da Europa atual, focada no incremento acelerado de renováveis e os Estados Unidos gaseificado pós Obama. Neste intervalo de tempo, embora a palavra sustentabilidade tenha vindo à tona, as razões que fizeram estes países caminharem para uma matriz energética mais sustentável em muito se basearam em aspectos de custo e independência energética.

O Brasil, cheio de rios e carente de carvão mineral e petróleo nos anos 50, não tinha outra opção senão começar a barrar rios e gerar energia através da queda de água. Já os EUA somente conseguiram tornar viável (até certo ponto) a desativação das termelétricas a carvão graças à revolução do shale gas, fazendo com que os federados, antes dependentes de petróleo vindo principalmente da Venezuela chavista e de reinos Árabes não democráticos, passassem de grandes importadores a supridores de energia para o mundo.

Se engana quem pensa que os europeus da OECD têm uma história diferente para contar. Fatores como a existência de um parque tecnológico desenvolvido e disponibilidade de recursos renováveis, somados ao exaurimento de suas reservas petrolíferas, dilemas acerca da geração nuclear e um compreensível desejo por não depender do gás russo, fizeram com que estes liderassem as chamadas para um mundo que emita menos em CO2 a cada quilowatt produzido.

No caso brasileiro, as mudanças climáticas, endógenas ou exógenas, com seus efeitos no ciclo hidrológico, a (in)disponibilidade de grandes reservatórios ainda não explorados e a demanda crescente por energia têm forçado o Brasil a pensar em estratégias que não a geração hidrelétrica. Por este motivo, temos visto a evolução da matriz energética rumo a uma diversificação que abriga projetos eólicos, solares, termelétricas a gás, pequenas centrais hidrelétricas e biomassa, fruto de esforços de longa data. Tais iniciativas do Oiapoque ao Chuí mostram o que o Brasil tem de melhor como país em várias frentes: diversidade!

Nosso país possui recursos como poucos ou nenhum outro, e por isso toda forma de transição energética deve ser consciente, alicercada em conceitos como ESG e principalmente segurança energética e menor custo. Por tudo isso, a série “Evolução Energética”, escrita por Ísis Ladeira em parceria com o Até o Último Barril, tem como objetivo gerar reflexões acerca de questões energéticas de uma forma longe do lugar comum.

Com esforços dedicados em uma abordagem multi-lateral, a série se propõe a discutir as complexas questões que a geração e o consumo de energia futuro evocam, particularmente no contexto brasileiro. A proposta é por definição desafiadora, uma vez que será preciso enxergar cenários que não aconteceram, alguns que provavelmente não acontecerão, mas que nem por isso se fazem desnecessários, muito pelo contrário: possibilitam uma discussão madura e afastada de enquadramentos pré-concebidos, tanto quanto possível.

Múltiplas perspectivas trazem soluções resilientes e efetivas
Imagem: Daily Kos

Muito usualmente, a transição para fontes de baixo carbono é discutida pelo ponto de vista ambiental. Digamos que o impacto ambiental das emissões de CO2 oriundas da queima de combustíveis fósseis que possibilitaram o desenvolvimento industrial que temos hoje é o motor que move nosso veículo até um lugar desconhecido chamado futuro. A manutenção do veículo (como ele está, se há combustível no tanque, se o óleo está em dia, se o freio está regulado e os pneus calibrados) é a segurança energética. E o tamanho do carro e quantas pessoas ele comporta (pode ser um new beatle, uma SUV ou uma van) é o que chamamos de acesso.

Assim, a série é uma coletânea de quatro artigos com o objetivo de discutir essa nova transição energética (já passamos por outras, não é?) por várias perspectivas, acreditando no valor agregado ao discutir a partir de uma perspectiva múltipla, que ultrapassa o aspecto ambiental e dá igual importância ao Acesso e à Segurança Energética.

Tripé multifocal base para pensar questões energéticas
Adaptado de Richard Norris

Inauguramos a série com o artigo “Compromissos ambientais: onde estamos enquanto país”, a fim de refletirmos onde estamos enquanto país signatário do Acordo de Paris e quais as perspectivas de longo prazo. Vamos abordar quais são as metas firmadas na Pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada (iNDC) e como os esforços brasileiros têm sido avaliados em relação aos de outras nações. E, ainda, vamos além: qual o papel do Brasil enquanto nação em desenvolvimento, de mercados não maduros e com uma história industrial recente?

O segundo artigo da série é intitulado “Elétrons não podem faltar: a segurança no suprimento energético”. Vamos ampliar o debate para as questões de segurança energética. A história brasileira tem os apagões dos anos 2000 para contar, com os quais aprendemos e desenvolvemos uma estrutura de planejamento energético louvável, com dados abertos para as instituições e para qualquer cidadão (fica aqui registrado o reconhecimento). Cabe, então, falarmos um pouco sobre as alternativas que podemos encontrar para um suprimento renovável contínuo, refletindo acerca de temas como a viabilidade de baterias e exemplos de como países que substituíram suas fontes fósseis estão lidando com a intermitência.

No artigo “Energia para quem? Vamos falar de acesso…”, o terceiro da série, vamos provocar reflexões em torno do custo total de geração de energia, compreendendo a energia como equivalente da economia. Abordaremos temas como o custo de gerar energia de forma distribuída em um sistema hoje centralizado, e a necessidade de termos energia barata, além de limpa.

Para finalizar, o quarto artigo propõe pensarmos acerca dos desafios daqui para frente, considerando as particularidades regionais apresentadas durante a série e as iniciativas já em curso. Muito foi feito nos últimos 15 anos e erros e acertos na trajetória, somados às mudanças tecnológicas e padrões de consumo, nos deixaram iniciativas como a Modernização do Setor Elétrico, REATE, Novo Mercado de Gás, entre outras. Vamos fazer um apanhado e discutir as conquistas e perspectivas no texto “Deus deve ser brasileiro: as graças e os desafios de um país abençoado”.

Convidamos todos a permanecer conosco nessa série que visa trazer reflexões que nos tirem a consciência de uma cadeira confortável e a leve para passear em lugares diferentes, possibilitando que, no final da viagem, a forma de gerar energia não seja a única a evoluir.


Ísis Ladeira é Engenheira de Petróleo formada pela UFF e atua como consultora de estratégia para negócios na KPMG há 4 anos, com a missão de auxiliar executivos a tomarem decisões de negócio. Sua experiência inclui serviços a empresas de óleo e gás, energia elétrica, aviação, construção civil e bens de consumo. Apaixonada pelo setor de energia, atualmente cursa especialização em Energias Renováveis, Geração Distribuída e Eficiência Energética pela USP.

 

Natan Battisti é Engenheiro de Petróleo formado pela Universidade Federal de Pelotas. Atualmente atua na Premier Oil como Group Development and Operations Technical Engineer onde, em 2018, iniciou como estagiário de HSES e Operações. Desde 2013 é membro da SPE e voluntário estando atualmente colaborando como voluntário da SPE London Section. Em 2020, Natan se tornou um dos fundadores do AUB onde é hoje líder de projetos.

 

Notas

[1] “IEA Data and statistics” Disponível em:  https://www.iea.org/data-and-statistics

Referências

“OPEC: Oil Demand Will Grow Until Late 2030s” Disponível em: https://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/OPEC-Oil-Demand-Will-Grow-Until-Late-2030s.html?

“BP Energy Outlook 2020”. Disponível em: https://www.bp.com/content/dam/bp/business-sites/en/global/corporate/pdfs/energy-economics/energy-outlook/bp-energy-outlook-2020.pdf

“Matriz energética brasileira: uma prospectiva”. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000300003

 

* Os autores reforçam que suas opiniões não representam necessariamente a das empresas nas quais trabalham ou de qualquer entidade da qual participem

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