Notícias, dados e análises da indústria de Energia, Petróleo e Gás

Mais OPEX?

Companhias de petróleo, especialmente no segmento upstream, concentram os seus esforços prioritariamente na descoberta de novas acumulações de hidrocarbonetos e na colocação de campos em produção de forma rápida, confiável e com o menor custo possível. Procuram, adicionalmente, distribuir o portfólio de esforços e ativos de Exploração e Produção entre grandes e menores, em riscos altos e moderados. A arte é não se endividar muito, compartilhar investimentos e riscos, atuar sempre preventivamente e com contingências. Capacitação intensa e salários atrativos fazem parte da sustentação a futuro.

No caso específico brasileiro, uma vez que as operações estão bastante concentradas na Petrobras, demandante de cerca de 90% dos recursos, aparece uma alta dependência de um único contratador, sobrecarregando riscos, dependência de investimentos e impactos de possíveis faltas. Todo investimento fica a reboque de anúncios de demandas sempre crescentes, por vezes não realizáveis. Os planos de negócio cada vez mais arrojados se tornam o alimento de motivação dos provedores, estes apostando no crescimento das projeções de consumo e concluindo anualmente volumes de vendas distintas das previstas. As funções naturais de mercado como distribuidores, serviços compartilhados entre empresas, por exemplo, não tomam forma definitiva no Brasil. As variações e lapsos de demanda influem quase que linearmente na atividade dos fornecedores diretos, desde que estes sejam apenas locais. Como disse um palestrante, “a Petrobras ameaça um resfriado e os fornecedores pegam pneumonia dupla profunda”. É ela, a Petrobras, que tem o ônus de carregar o Conteúdo Local quase que sozinha, sendo cobrada impiedosamente sobre a preferência de compras locais em vez de estrangeiras.

Aliás, quando se tem apenas um consumidor, a palavra “mercado” tem significado limitado, ou mesmo impróprio, diferentemente do significado da mesma expressão na interação entre muitos demandantes e muitos ofertantes.

Com o intuito de aumentar o Conteúdo Local nas últimas décadas, a opção comprar foi mais selecionada, uma vez que permitia induzir a fabricação controlada em solo nacional. Ocorre que agora ressurge a necessidade de realinhar-se com as melhores práticas internacionais, mais voltadas a “alugar” em vez de “comprar”, no relacionamento com o mercado fornecedor. Mais OPEX do que CAPEX.

Para unidades completas, como sondas, FPSOs, é normal que investidores construam e afretem (aluguem) para os operadores. A Petrobras utiliza parcialmente esses mecanismos. No caso de unidades FPSO, por exemplo, a subsidiária integral PNBV da Holanda adquire, contrata a construção e afreta para a operadora Petrobras. É certo que não possui pessoal técnico, utiliza a própria operadora Petrobras para especificar, etc. O problema, neste caso, é que o recurso da compra é da própria holding ou seus empréstimos, sendo um leasing interno na companhia, utilizando o mesmo caixa, visando basicamente os ganhos com o Repetro. A operação, manutenção, partes, peças, ficam operacionalmente a cargo da operadora diretamente ou por contratos seus com fornecedores.

Para sistemas e equipamentos, é comum internacionalmente o mercado provedor se encarregar de manter estoques de partes e peças, capacidades de manutenção, reparos, adaptações, compras, retendo pessoal especializado e treinado pronto para atuar para as operadoras. Obviamente, decidir sobre isto requer análise do ciclo de vida, custo comparado e confiança, no provimento integral de soluções e serviços por parte de fornecedores com competência assegurada.

A operadora ocupa-se de questões mais ligadas à riqueza natural, qualidade e quantidade de óleo e gás, reservas, reservatórios, decisões de produção, gestão das operações, assim como atividades essenciais correlatas.

Portanto, neste momento de recuperação financeira do país e da própria Petrobras, este movimento da mais OPEX (no sentido geral) poderia se tornar uma parte da solução, além da já divulgada venda direta de ativos em curso. Uma estratégia que poderia incentivar a recuperação do mercado brasileiro e aliviar os investimentos diretos da empresa.

Isto seria ainda mais eficaz se houvesse um aumento do número de operadores no país, uma redistribuição do número de demandantes, o que diluiria custos e riscos com os demais atuantes. Relembrando, a riqueza natural é do Estado, da Nação. Operar é trabalhar, produzir, nas regras do país.

Comments are closed.