Mais do que Petroleiros, Engenheiros!

Além da graduação, ter contatos com um mercado global e atenção às oportunidades de networking e de desenvolvimento habilitam os engenheiros de petróleo para atuarem em áreas adversas

A quebra do monopólio pouco antes do início do século, a entrada de novos players no mercado de petróleo brasileiro e a descoberta do Pré-sal provocaram uma grande excitação no país para suprir a demanda de profissionais que seriam requisitados nestas atividades. Tal entusiasmo foi gradativamente desgastado com a evolução das investigações da lava jato e descobertas dos esquemas de corrupção na Petrobras, gerando um grande abismo entre jovens profissionais e o mercado de trabalho petroleiro.

A redução dos investimentos alheios ao Pré-sal e finalmente o desenrolar do processo de desinvestimento da Petrobras em campos terrestres e de águas rasas tem mostrado grande potencial para atrair novamente investimentos e revitalizar as atividades de E&P nestas regiões. Apesar disso, a balança de formandos versus demanda do mercado petroleiro ainda se apresenta bastante desfavorável, causando uma debandada de profissionais altamente qualificados que buscam por alternativas às suas áreas originais de formação.

O sonho de todo Engenheiro de Petróleo é trabalhar no E&P porém, ao longo desta série de artigos, percebemos que este profissional possui qualificações técnicas e  um perfil analítico/gerencial altamente requisitados no mercado de trabalho, em áreas que vão muito Além do Óleo e Gás.

Mercado de Energia

O cenário atual parece não ser favorável à mudança do status quo do mercado de óleo e gás no Brasil: além da oscilação natural do mercado e preços baixos, assuntos como transição energética e sustentabilidade estão em voga.

Falando sobre a temática energética, muitas empresas gigantes e tradicionais do mercado petroleiro têm adotado posturas mais sustentáveis e inclusivas, permitindo-se transformar de IOC (International Oil Companies) para IEC (International Energy Companies ou Integrated Energy Companies), indicando um claro movimento de transição energética em que as empresas buscam se adaptar e evoluir a fim de não perder mercado global,adequando-se à nova realidade. Além deste movimento, outro que se observa é o forte crescimento no número de empresas de energia no Brasil. Segundo a ABSOLAR, a geração distribuída fotovoltaica cresceu por volta de 230% ao ano no Brasil de 2013 para cá, gerando empregos e expandindo a fonte renovável em nossa matriz (1). Além disso, o Mercado Livre de Energia tem tido expansão significativa, com a aprovação de 36 novas comercializadoras de energia de janeiro a agosto de 2020, 11% a mais se comparado com 2019 inteiro (2).

Gráfico 1 – Evolução da Matriz Energética no Brasil. Fonte: EPE, 2019 (3)

Ao analisarmos a evolução da matriz energética no Brasil (Gráfico 1), percebe-se um claro declínio da participação de petróleo e derivados e um aumento de fontes renováveis, o que certamente abrirá um leque de oportunidades para profissionais que estejam focados neste movimento.

Data is the New Oil

Atualmente, muitas empresas têm adotado a cultura data driven – ou seja, uma cultura orientada por dados para tomada de decisões com uma base sólida ao invés de suposições, como mencionado no Xº artigo desta série, escrito pela Jhordana Vencato.

No setor petrolífero não é diferente. Dentro da área de pipelines, por exemplo, tem-se observado que inspeções utilizando NDT (non destructive tools) exigem conhecimentos em análise de dados para que se tenha um diagnóstico factível através de tratamento e análise de imagens. Neste contexto, saber interpretar dados e transformar isso em informação útil e fundamental.

O conhecimento em linguagens de programação torna-se um ponto de destaque neste cenário, e empresas muitas vezes investem em treinamentos e cursos específicos para que seus profissionais se capacitem para colaborar com estes estudos.

A profissão de analista de dados é requerida em diversos setores da economia, e a formação em Engenharia de Petróleo pode ser vantajosa para quem pretende seguir por este caminho: ela oferece contato com disciplinas que exigem agilidade, pensamento lógico, identificação de padrões, além de ser por si só multidisciplinar, ou seja, temos contato com diversas áreas do conhecimento.

O relatório “Jobs of Tomorrow: Mapping Opportunity in the New Economy”, divulgado na última edição do Fórum Econômico Mundial indicou que áreas relacionadas a dados podem ser responsáveis pela criação de mais de 6 milhões de empregos até 2022 (4).

Seja no setor petrolífero ou fora dele, a profissão de analista de dados é uma das mais promissoras e aqueles que buscarem desenvolvimento certamente estarão bem preparados para enfrentar essa nova onda tecnológica.

Pesquisa e Desenvolvimento

O setor de P & D é extremamente importante hoje em dia para todo tipo de negócio. É através dele que as empresas se atualizam com relação a dados de clientes e sobre seu mercado de atuação. Além disso, é também essencial para a criação de novos negócios, produtos e estratégias.

Ao longo desta série de artigos, vimos que a formação – que é naturalmente interdisciplinar –  em Engenharia de Petróleo pode ser benéfica para profissionais que visam seguir por essa área de atuação. A alta exposição a conteúdos científicos, como geologia, geofísica, termodinâmica, engenharia de perfuração e de reservatórios treinam os graduandos e a pesquisar. Muitos desses temas são estudados através de artigos acadêmicos e publicações científicas, com uma escrita mais rebuscada. Este fato, aliado à alta carga laboratorial do curso, tornam os recém-formados em engenheiros e pesquisadores, plenamente aptos a continuarem atuando como tal dentro de empresas.

Vale destacar que posições em P & D requerem de seus profissionais uma alta capacidade analítica, de observação, de senso crítico e também de criatividade. Neste ponto, a participação em projetos de pesquisa ou de iniciação científica ao longo da graduação podem ser um ponto de destaque para aqueles que desejam seguir por este caminho.

Gestão de Qualidade

Buscando a melhoria do desempenho organizacional, a área de gestão de qualidade é responsável por corrigir erros, reduzir custos e tornar processos mais eficientes. Regulamentada pela ISO 9001, muitas empresas adotam tal certificação. Unindo conhecimento técnico e capacidade analítica as tão faladas soft skills, o profissional do setor de qualidade geralmente é alguém versátil, moderno e adaptável.

A graduação em Engenharia de Petróleo se mostra eficiente na formação de profissionais com este perfil: a alta carga técnica, com matérias específicas, aliada às oportunidades de networking e de desenvolvimento pessoal que a participação em capítulos estudantis da Society of Petroleum Engineers proporciona é um ponto de extremo valor neste sentido.
Outro ponto importante é o fato de que a indústria do petróleo (e vemos isso incansavelmente dentro da sala de aula) é, por muitas vezes, insalubre e perigosa. Uma mera desatenção pode trazer consequências catastróficas. Diante disso, os cuidados com a qualidade dos processos, com a segurança no trabalho é algo praticamente intrínseco nesta formação. É, muitas vezes, uma questão de vida ou morte.

Por fim…

Entendemos que o curso de Engenharia de Petróleo, por todos os argumento já repisados, pela sua multidisciplinaridade e pelo elevado grau de risco em que a profissão demanda,está apto a formar altamente qualificados e sobretudo responsáveis com a segurança do trabalho, de forma generalista ou especializada, e que as atividades extracurriculares são de fundamental importância para uma formação mais ampla e completa. A graduação aliada a um contato com um mercado global, oportunidades de networking e de desenvolvimento fora da universidade deixa a nós, Engenheiros de Petróleo, em condição de brigar de igual para igual em áreas adversas, nos capacitando para um mundo muito Além do Óleo e Gás.

 


 

* Os autores reforçam que suas opiniões não representam necessariamente a das empresas nas quais trabalham ou de qualquer entidade da qual participem.


Arthur Müzel é Engenheiro de Petróleo e Recursos Renováveis pela Universidade Federal de São Paulo. Parte de sua graduação foi feita no Langara College, em Vancouver (Canada) onde estudou Environmental Sciences e estagiou como assistente de laboratório em um projeto de pesquisa. Em 2019 iniciou sua trajetória como estagiário na COMERC Energia, onde atua até hoje como Executivo de Relacionamento com o Cliente, na área de gestão de consumidores no Mercado Livre de Energia.

Caio Gama é Engenheiro de Petróleo e Gás pela Universidade Veiga de Almeida e Técnico em Petróleo e Gás. Desde 2018 atua na Nord Oil & Gas SA, operadora independente no onshore brasileiro, onde iniciou como estagiário e hoje exerce cargo de Coordenador de Projetos de Exploração e Produção nos ativos da bacia do Recôncavo e Sergipe-Alagoas, especificamente na manutenção e revitalização de campos maduros e acumulações marginais.

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