Geração de energia a biomassa da cana pode triplicar

Agentes do mercado defendem políticas setoriais de incentivo e melhorias nos processos das usinas para ampliar a exportação da bioeletricidade sucroenergética para o sistema integrado, hoje inferior a 15% do potencial brasileiro

A geração de energia elétrica a partir da biomassa no Brasil depende praticamente do bagaço e da palha da cana de açúcar. Do total de 17.019 MW instalados em 621 usinas no país, 12.239 MW, ou 71,9%, são provenientes de 419 usinas que utilizam o bagaço como combustível final.

Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), entidade representativa das unidades produtoras de açúcar, etanol e bioeletricidade da região Centro-Sul do Brasil, principalmente do Estado de São Paulo, em 2021 a geração de bioeletricidade para o Sistema Interligado Nacional (SIN) foi de 25,4 mil GWh.  A produção do setor sucroenergético representou 20.202 GWh (79%) da produção total de bioeletricidade. Em seguida vem o licor negro, com 3.027 GWh (12%), o biogás com 1.154 GWh (5%) e as demais biomassas com 1.039 GWh (4%).

A Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen) complementa, informando que, das usinas existentes no país, aproximadamente 60% delas geram esse volume. “Todas produzem energia a partir do bagaço e da palha voltadas para o autoconsumo, mas cerca de 40% delas não exportam. Produzem apenas para consumo próprio”, informa Newton José Leme Duarte, presidente executivo da associação, acrescentando que a produção total destas usinas é da ordem de 55 mil GWh, dos quais 30 mil GWh são utilizados para a autossuficiência das unidades. O excedente é vendido para comercializadoras ou em leilões. A Unica informa, com base em números da Empresa de Pesquisas Energética (EPE), que das 369 usinas de açúcar e etanol em operação em 2021, cerca de 220 comercializaram eletricidade (60% do total). Mais de 140 usinas não ofertaram excedentes de energia elétrica para a rede (aproximadamente 40% do total).

Fonte: CCEE – Elaboração: DataCogen

 

Segundo levantamento da Única, nos dez anos compreendidos entre 2012 e 2021 (último dado disponível), a geração acumulada de bioeletricidade sucroenergética para a rede foi de 196.867 GWh, um volume, segundo a entidade, suficiente para suprir o consumo do mundo por 3 dias; da União Europeia por 15 dias; da China por 13 dias; dos EUA por 18 dias; do Reino Unido por 232 dias e da Argentina por quase 1 ano e 8 meses. No Brasil apenas em 2021, ano em que o país vivenciou a pior crise hidrológica desde 1930, a energia exportada pelas usinas foi o equivalente para atender 10,2 milhões de residências.

Ressalte-se que a geração a partir do bagaço possibilita complementariedade com a hidrelétrica, uma vez que o pico de geração das usinas de cana ocorre durante a época de poucas chuvas, aumentando a segurança energética do País. Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da Única, lembra que na crise hídrica do ano passado, a energia da cana de açúcar permitiu que fossem poupados 14% da água disponível associada à energia máxima que pode ser gerada nos reservatórios das hidrelétricas do submercado Sudeste/Centro-Oeste, considerado a caixa d’água do setor elétrico nacional.

Bioeletricidade ofertada para a rede, por tipo de biomassa em 2021 (em GWh e %)

Fonte: Única

Obs: Biogás inclui a produção a partir de resíduos urbanos (RU), agroindustriais (AGR) e de biomassa florestal (Florestais).

 

15% do potencial

Agora em 2022, a previsão da Aneel é que a produção de biomassa tenha um acréscimo de 845 MW, representando 8,7% do total de acréscimo na matriz elétrica de geração no ano, projetada em 9.677 MW. Ano passado, foram instalados 755 MW de biomassa, o que representou 10% da matriz elétrica de geração, que foi de 7.562 MW. A fonte biomassa já chegou a representar 32% do crescimento anual da capacidade instalada no país em 2010

Zilmar José de Souza, gerente de bioeletricidade da Única

Quanto ao futuro, na projeção do Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE 2031, a fonte bioeletricidade representará menos de 1% (400 MW) da previsão de acréscimo para o próximo decênio no Cenário de Referência. “De longe é a menor expansão indicativa em relação às demais fontes de geração. E isto é um ponto de atenção para agentes públicos e privados tentarem reverter nos próximos anos”, diz Zilmar. Ele acrescenta que, com base em dados da safra canavieira 2020/2021, o potencial técnico de geração de bioeletricidade pode ser estimado em 151 mil GWh. “Considerando que a geração sucroenergética para a rede, em 2021, foi de 20,2 mil GWh, estamos aproveitando menos de 15% do potencial de bioeletricidade sucroenergética para a rede”. Para reduzir este hiato entre a geração efetiva de bioeletricidade e seu potencial, Zilmar defende que se estabeleça uma política setorial estimulante e de longo prazo para a bioeletricidade e o biogás.

Newton Duarte, presidente executivo da Cogen

Newton Duarte, da Cogen, também acha pouco. Entretanto, defende o uso de sistemas mais eficientes para aumentar a geração. “A bioeletricidade é muito importante para as usinas. Essas que exportam têm uma vantagem competitiva fantástica”. Ele explica que a geração de energia, embora seja normalmente 10% do faturamento da usina, chega a 40% do lucro. “Com açúcar e etanol eu ganho 60%. Os outros 40% vêm da energia. Sem contar que as usinas que estão exportando hoje poderiam praticamente dobrar a capacidade instalada que já têm só com a modernização dos seus equipamentos. Essa modernização está voltada à eletrificação das moendas, por exemplo”.

Ele explica que tem muita usina que exporta energia, mas ainda usa vapor para a turbina fazer girar a moenda. Essa é uma solução implantada há 20, 30 anos, mas que é barata e funciona bem. “Sem contar que turbina é um equipamento que, pode-se dizer, não acaba nunca. Então se esse produtor eletrificasse a moenda, melhorasse outros processos de produção, fizesse o uso de palha na proporção adequada com o bagaço, poderia produzir mais energia elétrica e até dobrar a produção de energia”, afirma. “E não se faz isso por falta de capex e capacidade de endividamento”, explica.

Segundo Newton os usineiros ficaram muito endividados em 2015, em decorrência da política da então presidente Dilma que estabeleceu a paridade do dólar com o petróleo e seus derivados. Quando o governo teve que soltar os preços desses insumos, isso gerou uma inflação de 10,67% naquele ano, além de enormes prejuízos para o setor de energia, petróleo e sucroalcooleiro. Nesses últimos três anos, entretanto, os usineiros voltaram a ganhar dinheiro.

A implantação desses processos permitiria a duplicação da capacidade com as usinas que temos hoje.

Expansão indicativa acumulada para o Cenário de Referência (MW), PDE 2031

Elaboração: UNICA (2022). Fonte: MME (2022).

 

O fator Renovabio

Para crescer ainda mais o bolo da bioeletricidade Newton afirma que, por consequência, o Renovabio – política de Estado que reconhece o papel estratégico de todos os biocombustíveis (etanol, biodiesel, biometano, bioquerosene, segunda geração, entre outros) na matriz energética – poderia acrescentar mais 7 GW de geração.

Volume de bagaço para atender Renovabio tem potencial para gerar mais 7GW de energia I(Foto: Única)

Newton raciocina que, pelos fundamentos do programa, a indústria sucroalcooleira vai sair de 30 para 50 bilhões de litros de etanol até 2030.  “Para produzir 50 bilhões de litros de etanol, essa indústria vai ter que moer 200 milhões de toneladas de cana a mais do que os 650 milhões de toneladas que já mói atualmente. Esses 200 milhões de toneladas de cana propiciarão 50 milhões de toneladas de bagaço a mais. Esse volume de bagaço tem potencial para gerar mais 7GW de energia”. Se somados os 12 GW de capacidade instalada das usinas que hoje exportam energia, com outros 12 GW decorrentes da melhoria de processos destas mesmas usinas, mais 3,6 GW do biogás e 7 GW do Renovabio, chega-se praticamente a 34 GW.

“E se agregarmos as que não exportam energia e que têm um mundo pela frente para fazer isso, temos um cenário maravilhoso”. Segundo ele, a receita técnica para essas usinas é que elas “têm de sair, por exemplo, de uma caldeira de 20 kg/cm² para uma de 60 kg/cm² ou de 90 kg/cm². Isso permitirá que elas produzam muito mais vapor com a mesma tonelada de bagaço, possibilitando produzir muito mais energia elétrica para seus processos e para exportar”.

Competitividade e tecnologia

Zilmar Souza conta que, há alguns anos, a Única está na linha de frente para debater a modernização do setor elétrico para ter uma análise concreta da real competitividade de cada fonte de geração. “É um grande desafio, mas que precisa avançar e resultará numa política setorial mais estimulante para a bioeletricidade”.

Ele lembra que, em outubro de 2018, o Instituto Escolhas apresentou estudo da consultoria PSR sobre o real valor e benefícios das diversas fontes de geração de energia, observando seus principais atributos. Segundo o documento, o valor da energia da bioeletricidade para os consumidores finais no Sudeste seria 41% menor que o de uma PCH na mesma região; 14% mais barata que uma eólica no Nordeste e quase 50% mais barata que uma geração centralizada solar, também no Sudeste.

Para Zilmar, tal política setorial deve primar por diretrizes básicas envolvendo o esforço conjunto de agentes públicos e privados, tais como:

  • Avançar com mecanismos, nos mercados regulado e livre, que valorizem os atributos locacionais, elétricos, de confiabilidade, ambientais, econômicos e sociais advindos do uso da bioeletricidade e do biogás;
  • Dada a forte complementariedade entre a bioeletricidade e a fonte hídrica, Zilmar defende instituir um programa de contratação por meio de Leilões de “Manutenção dos Reservatórios” ou Energia Nova/Existente e a flexibilização da metodologia de revisão da garantia física das usinas.
  • Mitigação da dificuldade de conexão às redes elétricas, estabelecendo soluções estruturadas de médio e longo prazo concatenadas com o planejamento setorial.
  • Estabelecer nos instrumentos de planejamento setorial uma visão estruturante e integrada da bioeletricidade com os demais produtos da cana-de-açúcar na matriz de energia do país (etanol, biogás e biometano).
  • Por fim, tanto Zilmar quanto Newton defendem fortalecer o mercado livre, estimulando projetos, incluindo financiamento, segurança de mercado e uma formação de preços mais crível no Mercado de Curto Prazo (MCP), regularizando o pagamento mensal dos créditos devidos nas liquidações financeiras no MCP. Em 2022, a média de recebimento dos credores no MCP que não possuem liminares tem sido de apenas 24% de seus créditos, abaixo da média do ano passado (30%). Embora a dívida absoluta tenha diminuído com o esforço institucional do MME, da ANEEL e da CCEE, o funcionamento inadequado das liquidações mensais no MCP ainda persiste. Essa questão, conhecida no setor como judicialização do GSF, teve início em 2015.

GSF é uma sigla em inglês que significa Generation Scaling Factor. É a medida de risco que analisa a relação entre o volume de energia produzido e a garantia física de cada usina, ou seja, fator de ajuste de garantia física das usinas hidrelétricas que compõem o Mecanismo de Realocação de Energia (MRE). Inflados por um cenário de estiagem nos últimos anos, esses montantes contratados, mas não produzidos, acabaram expondo as geradoras no MCP, em que são liquidadas as negociações do setor. Por entenderem que parte desse risco não deveria ser imputado aos geradores, as usinas foram à Justiça e conseguiram liminares para não pagar por essa exposição.

Para resolver esse problema, o MME, a ANEEL e a CCEE propuseram um acordo de repactuação desses valores, o que foi possibilitado pela edição da Lei 14.052 em 2020. Desde a aprovação da regulação pela Aneel, algumas geradoras já decidiram antecipar o pagamento de seus débitos.

Venda de bioeletricidade nos leilões

Fonte: CCEE

 

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