Financiamento solar acelera

Entrada de novas fontes e mudanças nas condições marcam o segmento este ano

A fonte solar fotovoltaica saiu de 4,4 GW de capacidade instalada acumulada no país em 2019 para 7,3 GW em 2020 (dados da Aneel até 11/12). Com a acelerada expansão em potência, o volume de financiamento para projetos da tecnologia também cresceu. Até outubro, foram aprovados cerca de R$ 7 bilhões em financiamentos, segundo levantamento da consultoria Clean Energy Latin America (Cela), ante R$ 5,6 bilhões em todo o ano de 2019. Do montante deste ano, dois terços são voltados à geração solar distribuída, modalidade que ultrapassou a geração centralizada — são 4,2 GW contra 3,15 GW em operação, respectivamente.

Uma das instituições que protagonizam o cenário de financiamento para projetos solares é o Banco do Nordeste (BNB), que de janeiro a outubro aprovou R$ 3,4 bilhões em empréstimos para geração centralizada, mais do que o R$ 1,3 bilhão em 2019 e os R$ 3,2 bilhões em 2018. Enquanto para a GD, já foram aprovados R$ 218,7 milhões este ano, pouco abaixo dos R$ 228,6 milhões no ano passado e superior ao R$ 85,2 milhões de 2018.

No campo das grandes usinas, o BNDES passou a ser um player bastante relevante neste ano, disse à Brasil Energia a diretora da Cela, Camila Ramos. O banco havia ficado com pouco volume de financiamento nos anos anteriores por conta da regra de exigência de conteúdo local, que em 2020 foi alterada, tornando-o mais competitivo. Até outubro, foram contratados R$ 910 milhões via BNDES. Em 2018 o volume foi de R$ 1,2 bilhão, enquanto em 2019 não houve contratação declarada para construção desse tipo.

Geração distribuída

Em relação à geração distribuída, Camila afirmou que as principais fontes de financiamento estão sendo o Santander, o Banco Votorantim (BV) e o Sicredi. “A maior participação de bancos privados nesse segmento se dá por causa da maior agilidade que eles oferecem para aprovação do financiamento, além de melhores condições. As garantias pedidas pelos bancos de desenvolvimento são mais pesadas do que as dos privados”, afirma.

Em novembro, a Santander Financiamentos decidiu alongar de 60 para 72 meses (seis anos) o plano de pagamento de equipamentos fotovoltaicos. E ampliou de 90 para 120 dias o período de carência para o vencimento da primeira parcela. As medidas, informou a instituição, são resposta a um estudo de mercado que aponta o prazo de 120 dias como o tempo adequado para começar a pagar o financiamento, enquanto se aguarda por trâmites como importação dos equipamentos, disponibilidade e instalação completa do sistema.

O superintendente de estratégia do segmento de Bens e Serviços da Santander Financiamentos, Fábio Mascarin, disse à Brasil Energia que a demanda vem crescendo na ordem de 20% ao mês desde janeiro. Para 2021, a expectativa é de aumento de 40% no volume financiado. O principal foco são os projetos conhecidos como “telhados solares”. No caso de pessoa física, os projetos giram em torno de R$ 40 mil a R$ 50 mil, já de pessoa jurídica, por volta de R$ 150 mil a R$ 200 mil.

O Santander já financiou mais de 40 mil projetos de geração solar distribuída em todo o país, desde 2018. De acordo com pesquisa da consultoria Greener, o Santander é o banco mais usado para esse tipo de financiamento, com 40,8% de participação de mercado. 

Debêntures

Outra opção de financiamento que vem ganhando relevância são as debêntures. Depois de um período de congelamento durante o auge da pandemia, que ocorreu no primeiro semestre, o mercado financeiro prepara até o fim do ano R$ 1,2 bilhão em emissões de debêntures de infraestrutura para projetos eólicos (70%), solares e, em menor patamar, de PCHs, estima o Santander.

As emissões têm prazos de dívida de 12 a 18 anos, e parte das debêntures se voltarão para financiamentos complementares de projetos, disse à Brasil Energia o responsável por project finance do banco, Igor Fonseca. Um exemplo são  os projetos que contam com aportes limitados de bancos de fomento, principalmente do BNB que, além de estar com restrição orçamentária, tem limitado a 50% as alavancagens financeiras. Com as debêntures, há a possibilidade de elevar entre 20% e 30% a parte financiada dos projetos, tornando-os mais viáveis e aliviando as contrapartes dos investidores.

Uma novidade de 2020 foi o anúncio do primeiro projeto solar nacional a ser totalmente financiado em dólares. Em outubro, a Atlas Renewable Energy comunicou a obtenção de empréstimo de US$ 67 milhões do BID Invest, membro do grupo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), e do DNB Bank ASA, da Noruega, para financiar a construção da usina fotovoltaica Jacarandá, de 187 MWp, no município de Juazeiro, na Bahia. A energia a ser gerada pelo empreendimento será destinada à subsidiária brasileira da empresa norte-americana Dow, que firmou contrato de compra com prazo de 15 anos.

A Cela também identificou a entrada de novos bancos na área de financiamento para energia solar em 2020, como o Bradesco, via Losango, e o Banco Safra. A consultoria constatou ainda o aumento da atuação de fundos de investimentos em participações (FIPs), devido à queda da taxa Selic, que elevou a competitividade dessa fonte. Os FIPs são investimentos em renda variável, constituídos sob a forma de condomínio fechado, e são cadastrados na B3.

Para 2021, a diretora da Cela espera que o volume de financiamento para a solar seja maior, à medida que a fonte fica mais competitiva, devido à queda do custo da tecnologia e  ao aumento da eficiência. E também porque, com mais projetos em operação, as instituições financeiras podem conhecer melhor a tecnologia e, assim, sentirem-se mais confortáveis em financiar projetos do tipo.

 

 

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