Notícias, dados e análises da indústria de Energia, Petróleo e Gás

Deus deve ser brasileiro: graças e desafios de um país abençoado

Do céu ao mar, o Brasil dispõe de muitos recursos. A diversidade, em todos os sentidos, promove enormes benefícios para a Evolução Energética brasileira. Paralelos às bonâncias, alguns entraves são evidenciados. Nesse último artigo da série Evolução Energética comenta-se os desafios e conquistas brasileiras, bem como de que forma nosso recurso mais importante - as pessoas - pode ser crucial nessa evolução

Chegamos ao quinto e último artigo da nossa série Evolução Energética… Até aqui nós falamos um pouco sobre o papel do Brasil no alcance de metas globais de redução de emissões de CO2, os desafios em termos de segurança no suprimento, os equívocos de considerar apenas o preço de tecnologias como viabilizador da transição e a importância de considerarmos acesso à energia barata, entendendo energia como um dos principais elementos de bem estar social. 

Costumo sempre brincar que Deus é brasileiro, e colocou no Brasil tudo e mais um pouquinho de bênçãos: temos petróleo na terra e no mar, temos locais com vento (a propósito, alguns incrivelmente constantes e unidirecionais) e radiação solar invejáveis para o mundo, temos a Amazônia e o Pantanal, temos rios e aquíferos abundantes, temos terra para plantar e minas para extrair minérios.

Com uma matriz energética diversificada e renovável, o Brasil é referência mundial em diversas áreas. Lembro com clareza do meu espanto quando em uma conversa na Escola Politécnica da USP ouvi dizer que pesquisadores alemães estavam acompanhando de perto trabalhos sobre biomassa de florestas plantadas. Fiquei espantada porque os alemães costumam ser referência em diversas áreas tecnológicas, como a farmacêutica e engenharia, mas depois percebi que as contribuições de instituições brasileiras neste assunto iam além de uma única pesquisa: havia interesse também em projetos de cogeração à biomassa de cana de açúcar e no RenovaBio, tamanho o seu sucesso. Existem uma série de motivos pelos quais devemos nos orgulhar enquanto brasileiros. Abro um parênteses para a genialidade de um brasileiro chamado Ozires Silva. Graças à sua “sacada” de produção de jatos regionais e muita teimosia, metade das vezes que os estadunidenses embarcam em voos domésticos, eles estão voando em um Embraer. Não sou eu que estou dizendo isso, foi o astrofísico Neil Tyson quem disse [1]. Voltando ao aspecto da indústria energética, seguem alguns motivos elencados de forma não exaustiva:

  • Temos reservas gigantescas de óleo e gás de extrema qualidade. Desenvolvemos tecnologia nacional e com isso provamos que é possível explorá-las de forma viável e com segurança. Depois disso, quase todas as empresas de petróleo de classe mundial  compraram participação em algum ativo no país;
  • Na exploração e produção de petróleo possuímos um hub de tecnologia subsea com desenvolvimento, pesquisa e inovação. Concentramos a cadeia fornecedora com projetos relevantes: os maiores fabricantes do mundo querem estar e estão no país;
  • 50% do mercado interno de combustíveis de motores Ciclo Otto é suprido a etanol, nosso biocombustível produzido por usinas sucroalcooleiras que movimentam o interior do país, em estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Alagoas e Paraíba;
  • Diversos projetos eólicos e solares já se mostraram competitivos: temos o potencial solarimétrico e eólico do país mapeado e desenvolvemos projetos de classe mundial, que operam integrados a um sistema elétrico complexo;
  • No dia 21/10 a ANEEL abriu a primeira fase da consulta pública para normatização de usinas híbridas e associadas. Pouquíssimos países têm essa experiência, a saber: Estados Unidos, Índia, China, Reino Unido, Austrália e País de Gales;
  • Temos um sistema elétrico quase 100% integrado que opera com um operador único. Isso facilita o planejamento energético do país e permite desenvolver soluções complementares e sinérgicas;
  • Por último, talvez o melhor da lista: possuímos uma cultura diversa e inclusiva: fomos formados pela miscigenação e gostamos de interagir com novos povos, novas culturas, trocar experiências. Trabalhadores de outros países vem para o Brasil sem “medo” de serem discriminados, porque sabem que os colegas brasileiros em geral querem mais é abrir espaço para ensinar e aprender com eles. Somos colaborativos!

Obviamente, ainda temos inúmeros desafios econômicos e sociais a superar, e vivemos um momento em que o endividamento do país cresce com a pandemia por Covid-19 e ao mesmo tempo precisamos ser mais sustentáveis e eficientes, o que torna o desafio ainda maior. Citamos alguns que parecem oportunos para pensarmos a transição energética com diversificação de risco, acesso à renda, disponibilidade de infraestrutura e segurança no suprimento:

  • Nossa lentidão para chegar em acordos comuns no sistema legislativo faz com que investimentos sejam postergados constantemente. A aprovação do novo marco regulatório para o gás natural com a lei 6.407/2013 é uma verdadeira novela pela qual diversos agentes aguardam o fim ansiosamente. Isso traz conosco um ceticismo em relação a velocidade de implementação de medidas importantes rumo a uma transição energética eficaz. Não nos entenda mal: a direção é mais importante que a velocidade, e os órgãos de planejamento energético do país tem agido com a cautela necessária, mas no mundo dos investimentos existem as máximas: dinheiro é finito e não fica parado no tempo;
  • A complexidade tributária do país é um entrave para qualquer empreendedor de qualquer setor. A dificuldade em fazer com que governadores dos estados assumam os trade-offs de um sistema mais simples para colher benefícios de médio/longo prazo para seus estados é monumental e, somada à histórica dificuldade de coordenação do poder executivo de vários governos, faz com que a simplificação tributária seja um sonho um tanto quanto distante;
  • Muitos mecanismos já avançaram com as conquistas do REATE, mas muitos ainda faltam para a implementação de modelos descentralizados de produção de petróleo e gás onshore. A geração de renda para populações de áreas pouco industrializadas provocada por modelos como este ainda precisa encontrar apelo no setor público para flexibilização e eficiência necessárias a pequenos empreendedores;
  • Projetos de energia eólica offshore ainda estão engatinhando, com alguns poucos em fase de licenciamento ambiental. Ainda estamos aprendendo como regulamentar tais projetos;
  • As necessidades de um modelo de geração mais intermitente, mais distribuído, centrado no consumidor e cada vez mais digital passam pelo desafio de modernização do setor elétrico, que precisará alterar seus modelos de contratação, remuneração, e operação de um país que vai consumir mais energia precisando pagar cada vez menos por ela.

Assim, da mesma forma que exploramos o pré-sal, produzimos aviões, produzimos ônibus, exportamos carne de qualidade, desenvolvemos uma indústria cinematográfica genial e ouvimos um sorriso em quase todo país ao perguntar: “então você é brasileiro?!”, podemos contornar nossas particularidades e desafios. Precisamos minar a tendência de hipervalorização de tudo que é estrangeiro, e pouco apreço pelas riquezas locais. É preciso que o próprio brasileiro acredite e corrobore com a potencialidade que o país possui.

Que agucemos nosso olhar para dentro. Que vejamos nossas riquezas com outros olhos, para que assim possamos viabilizar um uso consciente dos nossos recursos que promova uma evolução energética diversificada, sólida e orientada ao consumidor.

Ísis Ladeira é Engenheira de Petróleo formada pela UFF e atua como consultora de estratégia para negócios na KPMG há 4 anos, com a missão de auxiliar executivos a tomarem decisões de negócio. Sua experiência inclui serviços a empresas de óleo e gás, energia elétrica, aviação, construção civil e bens de consumo. Apaixonada pelo setor de energia, atualmente cursa especialização em Energias Renováveis, Geração Distribuída e Eficiência Energética pela USP.

Filipe Duarte é Engenheiro de Petróleo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Atualmente atua como engenheiro de pré-comissionamento de dutos na Halliburton no setor de Pipeline & Process Services, onde iniciou carreira como estagiário em 2018. Durante toda graduação foi membro ativo do Capítulo Estudantil SPE Ufes, onde atuou em diversos cargos, incluindo a presidência do grupo. Em 2020, Filipe se tornou um dos membros fundadores do grupo Até o Último Barril, onde atua como líder de projetos.

Referências

[1] “Letter to Brazil”, added to the Brazilian edition of Letters From an Astrophysicist. Disponível em: https://www.haydenplanetarium.org/tyson/letters/2020-09-10-letter-to-brazil.php

 

* Os autores reforçam que suas opiniões não representam necessariamente a das empresas nas quais trabalham ou de qualquer entidade da qual participem

Comments are closed.