Debate sobre a exploração da Margem Equatorial está desvirtuado, aponta Suzana Kahn

Segundo a professora e diretora em exercício da Coppe/UFRJ, a discussão sobre a perfuração do poço na Bacia da Foz do Amazonas é apenas um sintoma de um problema crônico do país: a falta de planejamento

Em entrevista, Suzana Kahn fala sobre o desafio da transição energética e das mudanças climáticas, o papel do gás natural no Brasil, a discussão sobre a Margem Equatorial e a estratégia de atuação da Petrobras. Segundo ela, a transição energética deve levar em conta as desigualdades globais para ser justa e inclusiva, assim como o Brasil deve considerar as assimetrias regionais para explorar todo o potencial de uma “economia tropical”.

A transição energética atual é a mais complexa da história da humanidade, certamente. Ao contrário das anteriores, determinadas pela eficiência econômica, esta é motivada pelo clima. No meio disso tudo, a pandemia e, sobretudo, a guerra, agravaram o desafio da crise climática, já que as crises energética, alimentar e geopolítica se somaram a ela. Diante disso, como conciliar a transição energética com as demandas sociais? Ainda: como o Brasil está inserido dentro do cenário global, tendo em vista o resgate da política ambiental?

Bem, vou começar pelo Brasil. É evidente que o país possui muitas vantagens. Acho, inclusive, que ele é privilegiado no que diz respeito não apenas à disponibilidade de recursos renováveis, mas sobretudo de recursos naturais, o que inclui as fontes convencionais, como o petróleo. A meu ver, portanto, estamos muito bem posicionados, especialmente em relação à composição da nossa matriz elétrica, altamente renovável. Em relação a disso, não há dúvida de que estamos a frente de vários outros países, que não dispõem dessa oferta tão abundante e diversificada. O grande desafio, contudo, permanece sobre o aspecto econômico, tendo em vista a desigualdade crônica. Por ser muito grande, o país tem várias regiões em estágios assimétricos de desenvolvimento, índice de desenvolvimento humano (IDH) etc.

Dito isto, o desafio do Brasil está muito mais ligado a uma transição energética justa do que a transição energética por si. Como país, somos um exemplo em termos de energia renovável para o resto do mundo. E temos um potencial ainda monumental, que usamos ainda muito pouco. Na geração eólica e solar estamos indo bem, porém acompanhando o movimento que ocorre no mundo.

É uma questão muito complicada, não podemos dissociar a questão ambiental do desenvolvimento socioeconômico regional. Se no Amapá, por exemplo, não houver desenvolvimento para a região por conta da renda proveniente do petróleo, não se pode deixar o estado empobrecido, embora seja improvável que a exploração vá enriquecer a sua população. Afinal, o objetivo deve ser o desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida da população, se isto não for garantido, não adianta nada. Desse modo, você vai estar tendo um risco ambiental sem nenhum benefício àquela população que está exposta ao risco. Por outro lado, se a decisão política não for prosseguir com a exploração petrolífera, outra alternativa terá de ser apresentada.

Essas questões são muito complexas, porque as pessoas tendem a discutir em cima de certo e errado, preto e branco, não analisam essas nuances que são fundamentais. A questão da transição justa é muito importante. Você não pode querer que uma determinada região ou parte da sociedade fique ou sem acesso à energia ou tendo que pagar caríssimo por uma determinada energia por ela ser de uma tecnologia mais avançada.

Essas coisas têm que caminhar juntas. Você tem que ter uma lógica econômica, você tem que olhar a sociedade que precisa se desenvolver, que precisa da energia. Nesse sentido, a guerra na Europa colocou a perspectiva de uma falta de energia. O pior cenário é não ter energia.

O que se espera é que todos os países sejam desenvolvidos e na maioria deles, isto implicaria em aumento do consumo de energia. Não precisa ser um modelo tão perdulário quanto o norte-americano, mas é óbvio que haverá uma pressão maior sobre os recursos energéticos e a necessidade de utilizá-los com o menor impacto ambiental possível. Mas será preciso também ter um olhar mais generoso para auxiliar o desenvolvimento socioeconômico dos países pobres e emergentes.

A sua análise remete àquela frase de Indira Gandhi, proferida na primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em 1972. Na ocasião, ela disse que “o pior tipo de poluição que existe é a pobreza”. Como você disse, a desigualdade econômica é um fenômeno global. E o mundo está imerso em crises, enquanto caminha para uma tendência de taxar o CO2, o “irmão siamês” do PIB. Hoje, muito se fala em justiça climática, mas tenho a impressão de que pouco se fala em justiça energética. Como harmonizar, portanto, as justiças climática, energética e econômica no mundo de hoje?

Acho que o barateamento das fontes renováveis é o caminho mais curto para alcançar o equilíbrio. E isso pode ocorrer de duas formas: de um lado, o aumento de escala e, do outro, o financiamento e transferência de tecnologia dos países ricos para os emergentes.

É o que a gente chama de leapfrogging, não precisa passar por todas as fases anteriores para poder entrar direto em uma opção de geração mais limpa. Ninguém vai mais precisar queimar madeira para ter energia, já avançamos para tecnologias mais limpas e de baixo custo como o aquecimento solar, que já é factível.

Aumentar a escala faz com que os custos de produção caiam, o que já é uma realidade em vários casos. Já a transferência de tecnologia e a implementação de um modelo de financiamento para os países mais pobres podem reduzir as assimetrias globais, a fim de que essas nações possam se adequar a essa transição, que seria mais justa.

Quando estamos falando de clima, tratando do planeta como um todo, é possível ter uma matriz excessivamente limpa em alguns lugares, mas em outros não. Tem desigualdades sim, até dos recursos. Não dá para você passar uma régua e dizer “todo mundo vai usar renovável o tempo todo”, porque em alguns lugares é impossível, é caro chegar lá.

E é uma das razões de a gente ter conseguido assinar o Acordo de Paris. Copenhagen foi uma tentativa de acordo top down com meta determinada para os países seguirem, que não funcionou. Já em Paris teve acordo, onde cada país signatário de comprometeu a reduzir as emissões dentro de suas possibilidades. Afinal, um país como a África do Sul, por exemplo, detentor de grandes reservas de carvão e distante de outras fontes de energia, provavelmente adotará como solução o armazenamento daquele carbono no subsolo. Eu vejo que o mundo tem que ser total flex, com soluções que fazem sentido para cada região.

Até pouco antes da guerra, os europeus estavam na vanguarda do debate climático. De repente, o conflito militar desorganizou toda a ambição da União Europeia. Na sua opinião, essa guerra acelera a transição energética europeia ou retarda esse processo?

A guerra colocou a transição energética dentro de uma perspectiva de falta de energia. A transição deixou ser um desejo de curto prazo, tornando-se uma necessidade para o médio e longo prazos, pois diante da possibilidade de faltar energia, os europeus voltaram a queimar combustível fóssil.

Você não pode imaginar um mundo que não gere impacto e que não tenha energia. Tanto que a segurança energética entrou em cena como um subproduto dessa crise entre Rússia e Ucrânia. Para ter segurança energética é preciso ter um portfólio de fontes e de opções de abastecimento. Isso não é simples, principalmente tendo que buscar opções economicamente viáveis.

Não pode ficar dependente de um único parceiro. No caso da Europa, do gás da Rússia, passando por aquela região altamente conturbada. A geopolítica mostra a complexidade da transição energética, que não é simplesmente “virar a chave” sem buscar opções economicamente viáveis. Mas é fato que o mundo está todo em busca de opções de energia mais limpas e seguras.

No caso do Brasil, não estamos utilizando todas as nossas possibilidades, como o uso de biomassa, que poderia ser mais bem explorado. Não estamos explorando o potencial de uma economia tropical. Hidrelétrica, eólica, todas vão causar algum tipo de impacto. O que é importante é analisar e encontrar um consenso para ver o que nos beneficia. No caso do interior do país, a biomassa em todas as suas formas deve ser privilegiada.

E o gás natural, onde entra nessa história? Recentemente, num artigo publicado no Valor, você deu a entender que o gás natural pode não ser uma solução para o Brasil como muitos acham que é…

O gás natural não é exatamente uma solução para o Brasil como é para a Europa. Na realidade, o que temos no Brasil são enormes reservas de óleo com gás associado, o que implica um custo elevado de produção e escoamento, já que a sua maior parte está situada em campos muito distantes.

Então, atualmente, não é competitivo chegar com o gás que está a 200 km, construir dutos submarinos para chegar à costa, tratar o gas e ser distribuído por dutos para outras regiões. Além disso, o gás do pré-sal possui conteúdo elevado de CO2 que precisa ser reinjetado para não ir para atmosfera intensificando o problema do aquecimento global. É mais interessante utilizar o gás para reinjeção, a fim de manter a pressão no poço, extrair mais óleo e, ao mesmo tempo, deixar o CO2 no subsolo.

Em resumo, a maior parte do GN no Brasil está distante e é um subproduto, o que o torna caro para uso em terra. Agora, o gás que a gente tem onshore, que é pouco relativamente, pode ser utilizado em âmbito regional, na boca do poço, fazendo liquefação e levando por small scale, por exemplo por caminhões criogênicos. Pois ao se considerar o tempo necessário para a construção de um gasoduto e o fato de que as reservas de gás são finitas, o país pode vir a ter uma infraestrutura dutoviária ociosa.

Já nos EUA, a situação é completamente diferente. O país inteiro está interligado por dutos. Aqui, no Brasil, quando se fala em usar o gás para industrializar o interior, corre-se o risco de construir o duto para chegar lá e quando chegar – não ter volume de gás – O Brasil terá feito um investimento enorme. E vai fazer o quê?

Essa é minha crítica, enxergar o gás como opção para industrialização do interior, onde temos outras fontes que deveriam ser priorizadas para essa industrialização. Ou é onshore ou biomassa.

E a Margem Equatorial? Na sua opinião, devemos ou não perfurar poços exploratórios naquela região?

Acho que nas discussões é muito importante saber colocar o enunciado do problema. O enunciado do problema não é esse poço, é uma outra questão que está aí. Vamos continuar investindo na exploração de petróleo, em áreas sensíveis ou não sensíveis, ou vamos migrar para outras fontes de energia? Essa discussão acho interessante. Em relação a um poço, não vejo problema algum. É uma discussão em cima de uma outra questão. Isso está mascarando o ponto essencial que temos que avaliar. O Brasil vai continuar investindo em explorar petróleo e gás natural ou vai direcionar os investimentos em outras fontes de energia?

A gente está, nesse momento, numa discussão que não tem nada a ver com a perfuração do poço, porque ninguém sabe se tem petróleo lá. Um poço não vai causar dano algum. O que a gente deveria estar discutindo é se vamos continuar investindo em óleo e gás ou não.

Sendo essa a questão, volto ao que estava comentando sobre transição justa. Temos recursos suficientes para desenvolver o Brasil todo? Ou precisamos dessa renda do petróleo? Como fazer todo o país, toda nossa população e as gerações que estão vindo terem as mesmas condições nas regiões mais ricas do país?

Quais são as opções que serão oferecidas para as pessoas que vivem na Amazônia? Acho que essas são as discussões de fundo. Óbvio que não se deve desmatar, acabar com nossos recursos naturais valiosos como nossa biodiversidade, que se deve ter o máximo cuidado com a questão ambiental e ter rigorosos critérios para avaliar as intervenções. Também explorar a ME e produzir eventualmente muito petróleo não significa que irá se enriquecer a sociedade do Amapá e dos estados vizinhos.

Se é para manter a região como está, o meu argumento de que se deve avaliar o potencial da ME, cai por terra. O PIB per capita da Guiana cresce a passos largos, mas sua sociedade está rica, por acaso? Veja o Catar e Arábia Saudita. Houve realmente uma melhoria na qualidade de vida daquela população? Essa que eu acho que é a discussão que deveria estar existindo. Não uma discussão de furar um poço, que isso realmente, para mim, não tem a menor importância.
O que tem importância é como que a gente desenvolve o nosso país e a população, otimizando o uso dos nossos recursos naturais de forma a mitigar os impactos ambientais e maximizar os benefícios econômicos e sociais. E essa discussão não ocorre. Quais modelos de desenvolvimentos a gente quer seguir?

Mas você não acha que a decisão do Ibama de não permitir o início dos trabalhos é muito mais uma questão dogmática do que, propriamente, técnica? A ministra Marina Silva, por exemplo, diz que não cabe ao Ibama ditar a política energética do país, mas não cansa de expressar a sua visão de como a Petrobras deveria atuar…

Eu não conheço exatamente os estudos do Ibama sobre a ME, mas acho, até por conta da minha formação, de que quem trabalha com pesquisa científica, tem que ver o que realmente existe para poder fazer qualquer tipo de avaliação. Nós não sabemos com segurança se tem petróleo lá, estamos supondo que sim. Portanto, acho que estamos nos adiantando nessa discussão. Mas o Ibama está cumprindo o papel dele, aponta o risco ambiental e ponto.

A Marina Silva pode ter a visão dela, é legítima, mas cabe ao governo direcionar as decisões. Não é um ministério setorial que tem que decidir qual caminho de desenvolvimento o País irá seguir, nem tampouco a Petrobras ou o Ministério de Minas e Energia. O problema é que não temos planejamento. Nosso planejamento, é orçamentário. Isso é o que falta ao país, saber o que queremos. Um pode achar que a manutenção dos corais, é extremamente importante e deve ser preservado a qualquer custo, o outro pode achar que é aumentar o PIB do estado de qualquer forma…

Já o Estado brasileiro precisa ter uma estratégia, uma linha de ação que englobe e pondere todas essas visões, os prós e contras e que olhe realmente para um futuro, tenha um pensamento mais estratégico.

E qual deveria ser, na sua opinião, a estratégia de atuação da Petrobras? Ela está caminhando bem no cenário de transição energética?

Agora, com a entrada do Jean Paul Prates e do Maurício Tolmasquim, acho que a Petrobras começa a se readequar. Não é uma coisa rápida, vai demorar, mas acho que houve uma mudança de direção que é muito importante, que não estava havendo. É difícil até criticar as gestões anteriores, pois a empresa estava muito mal, a Petrobras precisava realmente sanear. Não tinha mais capacidade nem de se endividar.

Talvez ter vendido uma série de ativos possa, naquele momento, ter feito sentido, porque estava totalmente depauperada; foi mal gerida, teve corrupção etc. Com a entrada do Tolmasquim, com uma diretoria pensando na transição energética, acho que está muito no rumo certo, sim. Claro, o negócio dela é óleo e gás no momento, ainda será por um bom tempo, mas você tem que olhar pro futuro.

O acionista pode não ter um lucro imediato. Mas acho que você deve pensar na saúde da empresa por um período mais longo e deve começar a mudar a direção dos seus investimentos, seus negócios. Ir para outras áreas, além do óleo e gás, é muito importante para qualquer empresa de energia.

A Coppe/UFRJ acabou de lançar o Centro Virtual de Soluções Tecnológicas de Baixo Carbono. Quais são as atividades de pesquisa que vocês vão desenvolver inicialmente?

Um dos focos do centro é exatamente o EOR, enhance oil recovery – aumento do fator de recuperação. Então, tem muito trabalho nessa área e principalmente com esses campos do pré-sal, que tem muito CO2. Essa é uma das áreas. Outro tema que temos trabalhado bastante é a de bioenergia. Por exemplo, nós temos um grande trabalho com a Galp sobre BioQAV, que é um dos setores, o de combustível para aviação, que chamamos de hard to abate, que não é trivial reduzir emissões nesses setores. Nós temos trabalhado também com o uso de energias renováveis em plataformas, como energia solar. Não só gerar energia elétrica, mas também dessalinizar a água, porque se você consegue com a energia solar dessalinizar a água do mar, você evita o transporte de água doce e economiza energia.

Tem uma série de projetos associados à redução de carbono. Estamos falando da área de energia, mas tem a questão da construção civil, como o uso de biomateriais, resíduos sólidos para fazer concreto. A questão da logística, que é importante, também, pois se consegue reduzir muito a pegada de carbono de produtos finais por meio de um sistema logístico mais eficiente.

São vários aspectos que a gente lida na Coppe. É chamado de virtual porque não existe fisicamente, está espalhado pelos diferentes laboratórios da instituição.

Acabamos de realizar vários projetos com a TotalEnergies com este foco. Recentemente, o [Alfredo] Renault, ex-superintendente de P&D da ANP, assumiu a gestão executiva deste centro.


Matéria originalmente publicada no PetróleoHoje em 12 de julho de 2023.

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