Big Data: o potencial desta nova commodity

A digitalização chegou com tudo em diversos setores, e claro que não seria diferente para o mundo do petróleo

A digitalização chegou com tudo em diversos setores e claro que não seria diferente para o mundo do petróleo. Em busca de aprimorar conhecimentos e desenvolver tecnologias, as empresas do setor estão em uma corrida constante para encontrar soluções cada vez mais rápidas e eficientes para problemas clássicos do setor.

Diante deste cenário tecnológico, percebe-se que novas habilidades estão sendo buscadas nos profissionais da área, principalmente naqueles que estão entrando agora no mercado de trabalho. Mas como a digitalização impacta na vida dos trabalhadores deste setor tão complexo? A resposta é bem simples, há um grande movimento em busca de pessoas que entendam como funcionam os computadores, ou melhor, que consigam utilizá-los a seu favor.

A busca incessante por tais resultados é possível, por exemplo, através do uso da programação e de técnicas avançadas como machine learning, dois termos que temos ouvido muito ultimamente. Se você consegue se capacitar e desenvolver habilidades que te permitam flexibilidade para lidar com diferentes tipos de softwares e programas, você com certeza está no caminho certo, sendo este dentro ou fora do O&G.

Mas o que de fato é análise de dados? Diante da quantidade de informação que os computadores conseguem processar e armazenar, é necessário que existam pessoas capazes de identificar e manipular estes dados para que eles forneçam as respostas corretas de acordo com cada necessidade. Seria ineficaz utilizar um sensor que detecta milhares de informações por minuto, se não existir um meio ou alguém capaz de utilizá-las e interpretá-las. Visto isto, atualmente, muito se fala em cultura data driven, ou seja, uma cultura que seja orientada por dados para análise de resultados e tomada de decisões.

Os computadores ainda não conseguem fazer todo o trabalho sozinhos, pois, apesar de todo avanço tecnológico que temos atualmente, nós, seres humanos, ainda somos necessários no tratamento dos dados e em sua modelagem para uma melhor tomada de decisão. E é justamente neste contexto que a profissão “analista de dados” se insere. Basicamente, o trabalho de um analista de dados consiste em verificar e identificar padrões de sinais e/ou respostas provenientes de diversos tipos de sensores.

Quando falamos de indústrias de capital intensivo como O&G, Mineração, Agricultura, Siderurgia, etc boa parte destes sensores são responsáveis pela detecção de parâmetros que sejam relevantes para manter a operação segura e eficiente. Atualmente, existem inclusive monitoramentos que são feitos em tempo real em que o objetivo final é prever falhas fazendo com que as equipes de engenharia possam atuar de forma preditiva na manutenção, o que geralmente é mais eficiente do que as mais conhecidas manutenções preventiva e corretiva.

Na área de óleo e gás principalmente quando falamos em tubulações, todos estes monitoramentos tem o objetivo de aumentar a segurança das operações de transporte e distribuição dos produtos bem como manter a integridade física de todos que vivem em áreas próximas às instalações que por vezes apresentam riscos como alta temperatura  e alta pressão, evitando assim, possíveis acidentes e impactos ambientais  que possam ocorrer através de falhas ou rupturas.

Devido a formação mais focada em upstream, existe um mundo ainda não muito conhecido pelos Engenheiros de Petróleo que compreende os segmentos midstream e downstream: os pipelines. Uma das áreas de atuação neste setor é a inspeção de dutos utilizando testes não destrutivos (NDT-Non-Destructive Testing)1.

Tais testes empregam ferramentas que permitem que a inspeção ocorra sem necessidade de interromper a operação, uma vez que a ferramenta se move internamente no duto através do fluxo do próprio material que está sendo transportado. No caso das tubulações, essas ferramentas são chamadas coloquialmente de “pigs” e os tubos que permitem a aplicação destas são chamados de dutos “pigáveis”.

Uma boa analogia que facilita o entendimento das inspeções de pipelines é a comparação com perfilagem de poços. Do mesmo modo como é feito na aquisição dos perfis de poços, a ferramenta é inserida no local a ser inspecionado e realiza medições das paredes do ambiente que posteriormente serão analisadas e interpretadas. No caso da perfilagem, essas medições podem ser de radioatividade, resistividade ou sônica por exemplo, e o objetivo é distinguir litologias. Quando o assunto é tubulação, informações como temperatura, vibração, velocidade, magnetização e pressão tem maior relevância pois o propósito é identificar instalações e possíveis defeitos. É necessário que o duto tenha instalações de acesso onde o pig possa ser inserido e retirado, o que chamamos de “lançador” e “recebedor”, respectivamente. Durante a corrida do pig os dados são coletados e em seguida processados para que sejam destinados aos analistas que posteriormente realizarão um levantamento sobre a integridade da tubulação após avaliar seção por seção de toda a extensão do duto; do mesmo modo quando um médico faz o diagnóstico através de um exame de imagem. Posteriormente ao “diagnóstico” do analista, os Engenheiros de Integridade entram em ação para orientar o operador sobre a necessidade de alguma intervenção ou reparo no duto.

Para que o analista consiga identificar informações pertinentes e realizar o diagnóstico sobre a integridade de um duto, são necessários treinamentos específicos que variam de acordo com cada empresa e cada área de atuação, pois existem diversas tecnologias diferentes empregadas com esta finalidade.

Como exemplos pode-se citar a tecnologia MFL-A (magnetic flux leakage axial) e MFL-C (magnetic flux leakage circumferential), além de ferramentas que utilizam a tecnologia ultrassom. Cada uma das ferramentas é utilizada de acordo com as necessidades do operador, características do duto e deve-se manter as condições ideais de velocidade e magnetização para que o dado seja gravado com qualidade. Atualmente existem ferramentas capazes de detectar o tipo de material do duto, as espessuras, a existência de trincas, corrosões externas e internas, anomalias geométricas além da trajetória do duto através do uso de giroscópio. Também é possível detectar a existência de “taps” ilícitos na tubulação. Uma forma eficiente de otimizar os custos das inspeções, é fazer a combinação de tecnologias em uma única ferramenta evitando assim a necessidade de múltiplas corridas.

Imagens cedidas por ROSEN Brasil

 

As imagens acima ilustram um exemplo de uma tubulação sem corrosão e com corrosão, respectivamente. Estas imagens são provenientes da ferramenta MFL-C.

Hoje, percebe-se a necessidade da indústria em ampliar os conhecimentos e avançar no desenvolvimento de tecnologias para que seja possível prever e planejar as manutenções que ocorrerão durante a vida útil dos equipamentos. Aos Engenheiros de Petróleo que se interessem pela área e desejem atuar como analista de dados, é importante gostar de tecnologia, resistência dos materiais, saber lidar com prazos, ser ágil, detalhista e se adaptar com trabalhos repetitivos. Boa parte destes, vistos e muito dentro da Engenharia de Petróleo!

Por fim, o aprimoramento em linguagens de programação torna-se um ponto de destaque pois mostra a versatilidade como profissional, principalmente se tiver conhecimento em linguagens como Python, R e outros. A boa notícia é que ao longo da graduação em Engenharia de Petróleo, somos expostos a diversos desafios e disciplinas que acabam nos colocando em contato com assuntos relacionados a integridade de ativos, gerenciamento de banco de dados, programação, etc o que nos coloca em posição competitiva no mercado de analistas de grandes massas de dados, seja no setor de avaliação de integridade de dutos como exposto em detalhe acima, seja em outras áreas Além do Óleo e Gás.


Fonte: (https://www.rosen-group.com/global/company/explore/we-can/technologies/measurement/mfl.html)


Jhordana Vencato é Técnica em Química pelo Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul) e Engenheira de Petróleo pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Atua como Analista de Dados na área de inspeção in-line (ILI) de dutos na empresa Rosen com qualificação nas ferramentas MFL-A e MFL-C e membro do comitê Women in Energy Brazil (WIN) como Líder de Relações Externas.

Arthur Müzel é Engenheiro de Petróleo e Recursos Renováveis pela Universidade Federal de São Paulo. Parte de sua graduação foi feita no Langara College, em Vancouver (Canada) onde estudou Environmental Sciences e estagiou como assistente de laboratório em um projeto de pesquisa. Em 2019 iniciou sua trajetória como estagiário na COMERC Energia, onde atua até hoje como Executivo de Relacionamento com o Cliente, na área de gestão de consumidores no Mercado Livre de Energia.

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