Angra IV é o projeto da vez

Com Angra IV implantada em conjunto com Angra I, II e III, o Brasil terá futuramente um parque de geração nuclear para base da ordem de 5 GW, o que representaria uma economia equivalente de cerca de 25 milhões m3/dia de gás natural

Recentemente, o Ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em visita a uma unidade do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), deu um depoimento que surpreendeu a muitos: que no futuro Plano Decenal de Energia, a ser elaborado pela EPE e anunciado no início de 2022, será apontada a construção de uma nova usina de geração nuclear no Brasil, com a tendência de que a unidade fique no Rio de Janeiro.

A declaração não surpreende quem acompanha de perto o setor energético nacional, nem pela necessidade de uma nova usina nuclear, nem pela própria locação que, como especulação equivocada, diziam que seria em outros pontos da região Sudeste, ou até mesmo no Nordeste do país.

Os riscos energéticos de abastecimento que vivenciamos – resultado do baixo nível de acumulação hídrica em reservatórios, da crescente dependência de expansão de geração térmica pelo gás importado (GNL) e dos custos elevados e dolarizados do gás nacional, impactando não só os valores de investimentos (Capex), mas o custo operacional (Opex) – serão mitigados e melhor atrelados aos custos locais com o uso da energia nuclear.

Tive a oportunidade, em 2006, como então Conselheiro do CNPE, de pedir que a retomada da construção da usina de Angra III, que estava paralisada, retornasse à pauta. Esta usina, aliás, precisa ser finalizada e colocada em operação, como o próprio ministro Albuquerque também defende.

Na ocasião da retomada do projeto de Angra III defendi, ainda no CNPE, a tese vencedora da necessidade da escala para verticalização de domínio do ciclo nuclear para a geração elétrica no país, e também para suportar o domínio em outras áreas de aplicação nuclear como na Saúde, na Agricultura e até em sistemas de propulsão, como nos submarinos em construção pela Marinha em Itaguaí.

O cenário atual é positivo pois já foi superado, em muito, o discurso da reação ambiental que existia no passado, já que a geração de energia nuclear não emite gases que afetam o clima e a atmosfera, que é atualmente o maior agravante ambiental no cenário internacional.

Com grandes investimentos, o país também desenvolveu a produção do combustível nuclear em uma moderna fábrica da Indústrias Nucleares Brasileiras (INB), em Resende, no Sul do estado do Rio de Janeiro, favorecendo a escala e a logística de suprimento ao complexo de geração nuclear, já instalado em Angra dos Reis. Além disso, há também a disponibilidade de uma grande fábrica de equipamentos nucleares em Itaguaí, também no Rio de Janeiro, que é a Nuclep.

Da mesma forma, o complexo formado por Angra I, Angra II e Angra III ainda possui espaço físico para receber uma nova usina nuclear, o que vai baratear toda a geração e os custos fixos como os de logística e, em especial, os de segurança e de escoamento populacional em caso de crise.

Como outro argumento favorável, o local em Angra dos Reis que se transformará em um cluster de geração nuclear vai trabalhar com um sistema de refrigeração por água do mar, ao contrário de outros locais, especulados especialmente no interior do país, que colocariam sob risco os recursos hídricos fluviais utilizados para consumo humano e para a agricultura, dificultando extremamente o processo de licenciamento ambiental, com impacto nos custos para mitigar esses riscos.

A recente conquista política que tivemos com a instalação da sede da futura Agência Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) e a manutenção da CNEN, a Comissão Nacional de Energia Nuclear, no Rio de Janeiro, também favorecem institucionalmente a localização desse complexo integrado no estado.

Na mesma linha de reforço institucional do estado do Rio de Janeiro para localizar o novo empreendimento de geração nuclear, é lícito ressaltar a conquista, no Congresso Nacional, de sermos a localização do escritório central da empresa que herdará a gestão dos ativos da Eletrobras em sua eventual privatização, como a Eletronuclear, o que também favorece a localização da quarta usina em Angra dos Reis.

Da mesma forma, é importante ter uma nova usina térmica no subsistema elétrico interligado Sudeste/Centro-Oeste, já que é o principal centro de demanda do país e o mais fragilizado em flutuações de reservatórios de hidrelétricas. Mais ainda: a disponibilidade de espaços em linhas de transmissão, não só no Sul Fluminense mas em outros links de conexão como do linhão da State Grid, em Paracambi, que liga o Norte ao Sudeste do país, coloca o Sul do estado do Rio de Janeiro, em especial Angra dos Reis, em uma condição geoelétrica imbatível na comparação com outros pontos do país.

Na área de recursos humanos, para a concentração e operação da nova usina, o Rio de Janeiro possui notável parque de formação de pessoal de nível médio e superior, se destacando a formação tradicional em Engenharia Nuclear pela Escola Politécnica da UFRJ, bem como os excelentes cursos de pós-graduação na Coppe e no IME. Além disso, há um contingente de pessoal disponível que já atuou em outros empreendimentos como Angra I, II e III, mais a mão-de-obra oriunda de estatais como Eletronuclear, INB, CNEN, IRD, IEN e Nuclep, entre outras. Por fim, o Rio de Janeiro também abriga as sedes mais importantes e atuantes de entidades representativas do setor, como a ABDAN e a ABEN.

Com Angra IV implantada em conjunto com Angra I, II e III, o Brasil terá futuramente um parque de geração nuclear para base da ordem de 5 GW, o que representaria uma economia equivalente de cerca de 25 milhões m3/dia de gás natural, que poderia ser disponibilizado para outras aplicações. O desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro, portanto, não pode se omitir nesse tema, afinal,  já somos a capital da indústria nuclear brasileira.

Wagner Victer é Engenheiro, Administrador, Ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo e Ex-Conselheiro do CNPE

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