A indústria do petróleo com Joe Biden: uma visão mais sustentável

Movimento iniciado pelo governo americano refletirá em outros países participantes da cadeia do setor petróleo e na referência das suas matrizes

É certo que políticas públicas se modificam constantemente, no ritmo de seus protagonistas, sobretudo quando estas fazem parte do debate central do processo eleitoral e se caracterizam como a marca ou principal característica da proposta de gestão de um candidato. O desdobramento dessas políticas tende a contagiar toda a geopolítica mundial quando o país envolvido tem elevada representatividade política e econômica.

Um novo cenário surge para o setor petrolífero após a eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos. A essência desse cenário começa a se delinear e ganhará força nos próximos anos, quando o principal foco de atuação deixar de ser o processo de imunização em massa da população americana contra a Covid-19 e passar a ser a indução de novos mecanismos para a retomada do crescimento.

Fato é que a posição acirrada de Donald Trump sobre a pandemia gerou um claro movimento de polarização americana quanto à questão climática, levando os democratas a praticar uma postura mais sustentável, alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), agenda mundial adotada durante a cúpula das Nações Unidas (ONU), especialmente em relação ao Objetivo 13, que é Ação Contra a Mudança Global do Clima.

Em paralelo às ações dos múltiplos Partidos Verdes da Europa, inicia-se um processo lento de descarbonização da indústria, ainda hesitante quanto a avaliar ações efetivas e concretas em diversas áreas, inclusive na produção crescente do shale gas (gás de xisto) americano, que estabeleceu parâmetros mais resilientes em relação ao crescimento da cotação do petróleo internacional, de maneira muito mais efetiva que a constante ameaça que paira sobre os combustíveis fósseis frente às fontes renováveis e ao uso de veículos elétricos.

Recentemente, executivos das maiores empresas de petróleo dos EUA se comprometeram a tomar ações de combate às mudanças climáticas, o que aponta para um corte de emissões globais significativas nos próximos 30 anos e não somente no prazo anteriormente estabelecido em acordos internacionais, como 2030, hoje praticamente inatingível.

A indústria do petróleo americano tem apoiado o retorno ao Acordo Climático de Paris e está bastante alinhada com o que pensa a Conselheira Nacional do Clima da Casa Branca, Gina McCarthy, que definiu que os planos de Biden para enfrentar a crise climática estão centrados em impulsionar a recuperação econômica de forma equitativa, posicionando os EUA para vencer o século 21 e permitindo a criação de milhões de empregos sindicais bem remunerados nas comunidades americanas. Com isso, deixa claro que não há contradição entre a descarbonização, a economia mais limpa e a valorização da economia americana, além de afastar qualquer processo de conflito com a indústria petrolífera.

A própria reunião de cúpula da ONU, realizada recentemente de forma virtual, foi conduzida de forma colaborativa com gigantes do setor de combustíveis fósseis, tanto do trade comercial quanto de entidades como a American Petroleum Institute (API), além de grande companhias como ConocoPhillips, BP plc, Chevron Corp, Devon Corp, Royal Dutch Shell e Exxon Mobil, indicando também que o governo de Joe Biden aplicará medidas efetivas para o retorno dos EUA ao Acordo Climático de Paris. Isso, certamente, se desdobrará para outros acordos.

O movimento iniciado pelo governo americano, já no início da gestão de Biden, refletirá internacionalmente em outros países participantes da cadeia do setor petróleo e na referência das suas matrizes, por meio de exigências regulatórias que se equilibram com a postura americana e que não se configuram como fragilidades para suas vantagens corporativas, evitando o “vazamento de carbono” para economias emergentes como, por exemplo, a do Brasil.

É importante observar a evolução deste tema nos Estados Unidos, que terá impacto no Brasil pós Covid-19 e se transformará em uma missão importante das diversas corporações que atuam no setor, com reflexo na formação dos custos e no preço final do petróleo.

Wagner Victer é engenheiro, administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e do Petróleo e ex-Conselheiro do CNPE

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