A bola da vez do setor elétrico brasileiro será a armazenagem

A melhor forma de potencializar o brutal crescimento no Brasil das fontes intermitentes será pela instalação paulatina de sistemas de armazenamento (os mais simples sendo as baterias), devidamente posicionados para ganhos no sistema

É natural que as discussões em relação às diversas oportunidades e fontes de energia evoluam dentro da dinâmica da busca pela maior economicidade, e isso acaba trazendo também outros ganhos não previstos, como os ambientais, e às vezes até estimulando uma evolução além das expectativas, como aconteceu, por exemplo, com as fontes de geração eólica e a solar.

Muitas vezes esses resultados são inicialmente induzidos por políticas públicas, como fizemos através do Proinfa, cerca de 20 anos atrás, onde alavancamos algumas fontes como: biomassa, pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e as eólicas, na ocasião basicamente onshore, que patinavam por falta de uma demanda firme mínima.

Naquela época as fontes renováveis, especialmente a solar e a eólica, pouco eram incentivadas e só eram usadas em sistemas isolados. Hoje em dia, contudo, essas tecnologias ganharam uma dinâmica fantástica no país, a ponto de termos atualmente uma capacidade brutal instalada (13% da nossa geração é eólica, e 18% solar, somando centralizada e distribuída). Essa transformação virou ao mesmo tempo um grande vantagem, mas também um grande desafio no sentido de potencializá-la como uma fonte firme de energia.

A questão de serem duas fontes intermitentes de geração de energia, especialmente a solar, com capacidade instalada da ordem de 40 GW, lança fortes desafios para garantir a paridade entre os elétrons que estão gerados e os elétrons que estão sendo consumidos na ponta (que também está atingindo recordes por conta do calor desse último El Niño). Isso cria a oportunidade de potencializar outras fontes pouco emissoras, porém ainda de baixa eficiência energética e elevado custo para a sociedade, como o hidrogênio verde, que ao menos pode ser armazenado e que, a partir de uma logística adequada, poderá no futuro ter também uma contribuição limpa fora dos momentos firmes de geração.

Essa discussão, que não é feita apenas no Brasil, mas em todo mundo, ganhou uma boa dinâmica local no artigo feito pelo ex-diretor da Aneel, Edvaldo Santana, com o título: “Sairá caro para o consumidor de energia”. O artigo destaca os riscos das fontes de energia intermitente no Brasil, que cresceram em um nível acima das previsões, graças também a elevados subsídios que na prática estão impondo custos para toda sociedade.

É fato que esses subsídios contribuíram em muito para a redução da rentabilidade de muitas distribuidoras de energia que, apesar de não terem a geração como atividade fim, acabaram perdendo excelentes clientes para sistemas de Geração Distribuída e estão tendo que suportar e oferecer estrutura para absorver a oferta solar diurna e ao mesmo tempo sendo obrigadas a aproveitar esses créditos dos consumidores para o horário de pico (noite). Ou seja, algo que seria altamente lógico para uma demanda pequena, porém que começou a deslocar blocos de energia significativos e clientes importantes de distribuidoras.

Na mesma linha, a Aneel, de maneira correta, colocou até dezembro do último ano uma Consulta Pública (39/2023) para discutir como rentabilizar e fomentar os sistemas de armazenamento no Brasil, especialmente aqueles através de baterias. Esta é uma alternativa muito promissora e uma grande oportunidade para “consertar” os problemas da energia solar e da eólica.

Os sistema sob discussão têm uma profunda análise no paper feito pelo pesquisador associado da FGV Energia, Francisco Victer, sob o título: “Nova Regulamentação da Aneel para o Armazenamento de Energia: Desafios e Oportunidades de 2024 a 2027”, que apresenta as oportunidades dentro da regulação proposta e coteja com o movimento que acontece no exterior dentro de um processo de remuneração dessa atividade, que se colocará como uma grande oportunidade e tendência no país.

Historicamente, nosso armazenamento de energia se fazia pelos grandes reservatórios de nossas hidrelétricas, que perderam bastante de sua capacidade plurianual devido à incerteza climática. Porém, a armazenagem sempre foi uma oportunidade para a estratégia da energia: desde que o homem começou a cortar lenha para se preparar para o inverno, até novas tecnologias que começam a surgir como a armazenagem gravitacional, que pode existir na forma de hidrelétricas reversíveis, que também estão em discussão pela Aneel, ou por inovações como os projetos-piloto implantados na Itália e recentemente em execução na China pela empresa Energy Vault, que alguns apelidam como “guardar energia potencial através da elevação de caixotes”.

Um estudo recente da consultoria Cela (Clean Energy Latin America) apresenta que o mercado para sistema de armazenamento de energia no Brasil pode atingir um crescimento de 12,8% ao ano até 2040 e incrementar 7,2 GWh de capacidade de armazenamento instalada no período, o que é um número bastante impressionante e que apresenta perspectivas elevadas de investimentos no pais.

É óbvio que essa dinâmica dependerá de como a regulamentação sairá e da observância de investidores para o tema que venham potencializar os seus projetos de geração de energia variável, até inicialmente através de projetos pilotos financiados por verbas de P&D de agências reguladoras, como os disponíveis na ANP e Aneel.

Da mesma forma, a remuneração por outros benefícios que se integram ao sistema, como os serviços ancilares, vão precisar de uma boa discussão dentro da dinâmica que se espera para essa regulamentação prevista que a Aneel pretende lançar ao longo do ano de 2024.

O fato é que, sem sombra de dúvidas, a melhor forma de potencializar o brutal crescimento no Brasil das fontes intermitentes será pela instalação paulatina de sistemas de armazenamento (os mais simples sendo as baterias) devidamente posicionados para ganhos no sistema, naturalmente observando questões geoelétricas que tragam benefícios ao sistema de transmissão, algo que se tornará uma grande oportunidade para empresas que investem em energia e que pretendem trabalhar a longo prazo com sistemas de geração de energia de baixo carbono.

Ainda há poucas experiências desse tipo no Brasil. De porte razoável, somente em uma planta de 60 MWh inaugurada em março do ano passado pela ISA CTEEP em São Paulo. Entretanto, alguns investimentos dentro da América do Sul caminham por essa área, com o Chile, por ser um grande produtor de lítio, estando à frente na regulação.

A reavaliação tributária desse sistema é algo que precisa ser focada na redução temporária pela incapacidade do Brasil, em um primeiro momento, de produzir todos os equipamentos que consigam suportar esses sistemas em bases competitivas, mas fundamentalmente alavancar outros projetos já instalados.

Em suma, a armazenagem de energia emerge como o novo foco primordial do setor elétrico brasileiro, um desenvolvimento fundamental na era das fontes de energia intermitentes, como a solar e a eólica. A regulamentação proposta pela Aneel e os projetos-piloto com baterias em andamento são passos importantes nesta direção. No entanto, há ainda um caminho a ser percorrido, que inclui a superação de desafios regulatórios, tributários e de infraestrutura, para que o Brasil possa aproveitar plenamente as oportunidades oferecidas por esta nova era de geração de energia de baixo carbono. Assim, o futuro do setor elétrico brasileiro está inexoravelmente atrelado ao desenvolvimento e à implementação eficaz de tecnologias de armazenamento, um campo fértil para investimentos e inovações que prometem revolucionar a maneira como a energia é produzida, armazenada e consumida no país.

 

Wagner Victer é Engenheiro, Administrador, ex-Secretário de Estado de Energia, Indústria Naval e Petróleo, e ex Conselheiro do CNPE. Escreve mensalmente na Brasil Energia.

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